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Lavadora de louça

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2016.02.19

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

A história curta é que a esposa me pediu para lavar a louça. Corri para a loja e comprei uma lava-louças :P

A história longa é que já namorávamos esse eletrodoméstico há algum tempo, mas fomos adiando a compra em favor de outras coisas talvez menos úteis, por diversos motivos. Sendo bem honesto, foi mais por preconceito do que por qualquer outro motivo. Sabe como é: dizem que lavadora de louças não lava a louça direito, que precisa pré-lavar de qualquer jeito. Também compramos mais comida fora do que a média, então temos pouca louça "pesada" e por isso achávamos que não era tanta vantagem para nós. E a cada meio dia, a pia ficava cheia das minhas xícaras de café (uma das poucas frescuras que eu tenho: não gosto de tomar café em copinho descartável).

Por conta disso, não previmos espaço para ela no projeto da cozinha. Mas deixamos um espaço na lavanderia, para o caso de mudarmos de idéia no futuro. Um outro fator, mais legítimo, é que nosso muquifo tem aquela coisa "moderna" de cozinha-copa-sala tudo num grande ambiente único, e aí o barulho da lavadora de louças poderia incomodar. Na pequena lavanderia, tem porta.

Compramos uma Brastemp 8 serviços, que minha esposa já vinha namorando faz um tempo, já tinha consultado "n" resenhas, medido "2n" vezes o espaço para ver se cabia, etc. Não foi uma aquisição dispendiosa — custa menos da metade de um iPhone, e é um objeto que vai economizar seu tempo, em vez de fazer você perder tempo com Facebook e cia. :)

Por "serviço", entenda um conjunto de louças e talheres para uma mesa composta: prato raso, prato fundo, taça, copo, xícara de café, os diversos talheres. Em tese, uma máquina de 8 serviços lava a louça de um jantar de 8 pessoas, de uma vez. (Nesta conta não entram panelas ou outros utensílios necessários para preparar a refeição.) Como somos em apenas 3 aqui, a máquina de 8 serviços é suficiente. Ela pesa 30kg e cabe sobre um balcão, mas ocupa um bom espaco quando instalada dessa forma.

Existe um modelo de 6 serviços, ideal pra gente solteira, que cabe em cima da pia. O esgoto pode ser despejado para dentro da pia mesmo, se a preguiça não permitir providenciar uma instalação hidráulica. Por outro lado, os modelos de 10 ou 12 serviços são bem grandes, parecem geladeiras de vinho. Precisam ficar no chão ou sobre uma base muito sólida.

A complexidade de instalação é semelhante a de uma máquina de lavar: precisa uma tomada de energia de 20A (a minha máquina consome apenas 7A realmente, então bastou trocar a tomada, sem mexer na fiação), um ponto de água e um ponto de esgoto. Principalmente o ponto de esgoto é o que vai determinar onde ela pode ficar. Diferentes máquinas exigem diferentes alturas do ponto de esgoto: algumas pedem que ele esteja no nível da base (como a minha), outras pedem que esteja mais alto.

Tecnologia

Tecnologicamente, uma máquina de lavar louça não empolga muito. Certamente é muito mais simples que a lavadora de roupas LG; a complexidade fica mais no nível de uma lavadora de roupas comum. Também faz um pouco de barulho.

O "coração" da máquina é uma bomba de água. A água é bombeada com uma certa pressão, através de braços ou hélices giratórias que jogam água para todo lado, tentando atingir todos os cantos da louça. A própria pressão da água faz as hélices girarem, o que torna tudo muito simples.

O milagre da lavação de louça sem contato físico é realizado pelo detergente especial, que é extremamente alcalino. Máquinas profissionais usam nada menos que soda cáustica. Os detergentes para uso doméstico são menos perigosos, mas ainda são bem mais fortes que o detergente de pia, e definitivamente não devem ser manipulados.

Quanto melhor o detergente, mais aditivos ele terá: enzimas, surfactantes, inibidores de corrosão, etc. e mais bem lavada fica a louça. Mesmo o detergente mais barato lavará pratos; a diferença ficaria mais evidente na hora de lavar uma panela com incrustrações de fritura. Falando muito genericamente, os detergentes em tablete são mais caros, porém melhores e mais cômodos, que os detergentes em pó. Por outro lado, os detergentes em pó podem ser dosados mais precisamente, o que pode resultar em economia (o tablete é o mesmo para 6 serviços ou 12 serviços).

"Surfactante" é uma substância que deixa a água mais "molhada". Na presença dele, a água molha toda a superfície de um objeto com uma fina camada, em vez de formar gotas. O surfactante ajuda a água a atingir toda a louça, e num segundo momento ajuda a secar sem manchas. Além do surfactante incluso no detergente, a máquina de lavar típica possui um recipiente para "líquido secante abrilhantador", que é surfactante puro. Uma pequena quantidade desse líquido é liberada na hora do enxagüe, para facilitar a secagem. Não sei se faz muita diferença; o que observei é que ficam menos pingos de água no "teto" da lavadora quando o líquido é utilizado.

Alguns sites da Internet dizem que é possível usar vinagre como líquido secante, que certamente seria muito mais barato. Por outro lado, existem relatos de gente que botou vinagre e a máquina enferrujou por dentro em uma semana! Se a grana está curta, melhor não usar nada e não arriscar estragar a máquina...

O detergente é potencializado pela água quente - 50 a 60 graus, mais do que se consegue agüentar lavando louça à mão. Quase todo ciclo da máquina esquenta a água, e esse é o maior fator de consumo de energia.

Uma lenda é que é preciso "pré-lavar" a louça muito suja antes de colocar na lavadora, o que negaria a maior parte do benefício prometido. Mas realmente não é preciso fazer isso. Basta remover os resíduos grandes e insolúveis que não escoariam naturalmente por um ralo de pia. A lavadora possui um filtro de tela que retém tais resíduos (para evitar entupimentos e outros problemas), só que eles ficam lá dentro, junto com a louça e contaminando todas as águas. Imagine um osso de galinha ou um bife na água quente do enxagüe, emprestando aquele "sabor" a todas as louças. Existem lavadoras com triturador de resíduos sólidos incorporado (raras no Brasil) mas não tenho idéia qual o tamanho dos resíduos com que elas conseguem lidar.

A secagem é "natural", ou seja, a máquina enxagua com água muito quente e o calor residual, aliado ao fato da camada de água residual ser muito fina (se você usou um bom detergente e/ou preencheu o reservatório do "líquido secante"), permitem que a louça seque sozinha lá dentro. Minha máquina não tem um ventilador para ajudar na secagem, acredito que outros modelos possuam.

Custo de operação

Como lavar louça é uma atividade recorrente, e os insumos (detergente, líquido secante) são mais caros que os produtos de limpeza comuns, é interessante colocar o custo por ciclo em perspectiva.

Segundo o manual, minha máquina gasta pouco menos que 1kWh de energia por ciclo, e 20 litros de água. O gasto de água é negligenciável (e menor que o gasto na lavagem manual), mas a energia custa R$ 0,70 por kilowatt-hora na minha região. Some-se a isso mais R$ 0,75 até 3,20 de detergente. O mais barato é usar detergente em pó, sem excesso (R$ 30 o pote, deve dar para 40 lavagens). Os tablets custam entre R$ 1,20 a 1,60 cada. Quando o ciclo é pesado (panelas e utensílios muito sujos), o ciclo exige o dobro de detergente, e assim chegamos no custo máximo possível de 2 tabletes de R$ 1,60 = R$ 3,20. No exterior, não é muito diferente: os tablets custam entre US$ 0,15 (marca "genérica") e US$ 0,50. A garrafa de líquido secante custa R$ 25 e o conteúdo supre 80 ciclos, teoricamente.

Na média, a máquina custará R$ 2,00 por ciclo, sem contar o custo do próprio equipamento. Isso dá R$ 60/mês se for operada uma vez por dia, ou R$ 120/mês se for operada duas vezes por dia. Em troca, ela vai economizar 30 a 60 horas de trabalho, que "valem" R$ 153 a R$ 306 na pior das hipóteses (considerando salário mínimo de R$ 900 e 176 horas úteis/mês).

Cuidados

Como dito antes, os insumos para máquina de lavar louças são produtos químicos, bem mais fortes do que aqueles utilizados em limpeza manual. Cuidado ao manipulá-los, e cuidado com as crianças da casa.

Nem tudo pode ser lavado na máquina. A maioria das restrições tem a ver com o fato do detergente ser fortemente alcalino. Exemplos: panelas e utensílios de alumínio, utensílios com cabo de osso, cristal de chumbo, porcelanas finas/antigas e objetos de prata. O calor também pode entortar determinados tipos de plástico. Consulte o manual da máquina e do detergente para conhecer todas as restrições.

Itens contaminados por cera, combustíveis, solventes, cinza de cigarro, etc. não devem ser lavados na máquina pois podem contaminar as louças do mesmo lote e também as dos próximos lotes.

Como as lava-louças estão cada vez mais difundidas, as louças tendem a ser mais e mais compatíveis, e você mesmo vai começar a escolher novas louças em função do que pode ser lavado na máquina, e em função do que cabe dentro da máquina que você comprou. Aqui tenho uns pratos quadrados enormes que já vão enfrentar o ostracismo porque não cabem, senão com muitos contorcionismos.

Vidro é lentamente dissolvido por soluções alcalinas, então objetos de vidro podem ter a aparência alterada com o tempo, principalmente se já foram lavados manualmente (os riscos microscópicos potencializam a corrosão, que ocorrerá de forma desigual). Os detergentes têm aditivos para mitigar essa corrosão em utensílios sem riscos. Como dito antes, cristal de chumbo não deve ser lavado na máquina, por ser mais sensível à corrosão alcalina, e liberar chumbo que é altamente tóxico mesmo em quantidades minúsculas.

Parte da lenda que a máquina de lavar louças estraga os utensílios, vem do fato dos detergentes usarem areia fina nos tempos antigos. A areia proporcionava o atrito que o senso comum nos diz ser necessário para remover a sujeira. Certamente lavava muito bem — e também riscava bem rápido, é praticamente um jato-de-areia.

Outra 'lenda' parcialmente verdadeira é a quebra de objetos de vidro por choque térmico. A maior chance disto acontecer é se a lava-louças for aberta enquanto os objetos ainda estiverem quentes lá dentro. Não faça isso se não precisar.

O grande inimigo da eficiência da lavação é a "água dura" - água com muitos minerais dissolvidos, que diminuem a eficiência do detergente. Sintomas de água dura: formação pobre ou nula de bolhas de sabão, e resíduos calcificados em objetos em contato com a água. Isso não é um problema no Brasil, mas é nos EUA e Europa. Nesses lugares, as máquinas de lavar louça podem vir com um dispositivo adicional para "amolecer" a água (e que consome um terceiro insumo).

Dicas do Ademar

Quando comprei a máquina, o amigo Ademar, que já morou no exterior onde as máquinas de lavar louça são ubíquas, deu algumas dicas. A maioria delas eu não pude seguir, já que instalar a máquina aqui foi praticamente um "retrofit", mas fica registrado para quem está na fase de planejar móveis.

Dica 1: comprar a maior máquina de lavar que puder, dadas as suas limitações de orçamento e principalmente de espaço. "Maior" no Brasil significa uma máquina de 12 serviços, parece que no exterior são maiores ainda. Isso porque a tendência natural do "workflow" será acumular a louça suja dentro da própria máquina, mantendo a cozinha em si sempre limpa. Numa máquina grande, cabe mais louça. Como um ciclo sempre consome pelo menos um tablete de detergente, seja em máquina de 8 ou 12 serviços, a máquina maior lava mais com o mesmo insumo.

Dica 2: como você não tem mais de lavar louça, a tarefa restante mais custosa é acomodar a louça na máquina. Uma máquina grande facilita essa acomodação (a minha máquina de 8 serviços exige algum contorcionismo). E uma instalação ergonômica, num local estratégico da cozinha, evita andar com louça pra lá e pra cá. Novamente, a máquina grande ajuda com a ergonomia, e talvez o ideal seja instalá-la mais alto, se o espaço permitir, para evitar ficar se curvando. Pelo menos isso minha instalação tem de vantajoso: a máquina está no nível da bancada, poupando a coluna de todo mundo.

Dica 3: um ralo com triturador casa bem com a máquina de lavar louça, pois evita acumular restos de comida no lixo (lixo de cozinha, esteja onde estiver, levanta odor em poucas horas). O triturador é polêmico do ponto de vista ambiental (polêmico mesmo: alguns dizem que é a melhor opção, outros dizem que é a pior). Nem toda instalação hidráulica comporta um 'bicho' desses. Principalmente em casas antigas, com tubulação estreita e aquela caixa de gordura de cimento, o triturador poderia causar entupimento.

Dica 4: objetos de vidro vagabundo vão quebrar mais facilmente por choque térmico. Aceite isso como uma "seleção natural" e vá substituindo por louças melhores.

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