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Resenha do livro 'No one would listen'

2011.05.28

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Figura 1: Capa do livro No One Would Listen

Todo mundo já ouviu falar de Bernard Madoff, e muitos devem ainda lembrar do que significa este nome. Basicamente, este amável cidadão conduziu uma fraude durante 20 anos, causando um prejuízo final de 65 bilhões de dólares.

A fraude era no estilo "pirâmide", ou talvez "roubar Pedro para pagar Paulo": um fundo de investimentos que prometia rentabilidade alta com variância praticamente nula. Na verdade não havia investimento nenhum; o dinheiro simplesmente ficava parado no banco — menos é claro o que ele sacava para uso pessoal, numa vida cheia de luxo, demonstração de riqueza, sem faltar as ações de caridade como é típico dos ricos dos EUA.

Quando o caixa ficava curto para cobrir eventuais retiradas, Madoff arrumava novos investidores. Nisto, Madoff era ajudado pela sua posição proeminente na sociedade e na comunidade judaica, onde seu fundo era conhecido como "the Jewish T-Bill" (numa tradução livre, "a caderneta de poupança dos judeus"). A nata da nobreza europeia também "investia" com ele.

A coisa rolou até 2008 quando as retiradas devido à crise foram vultosas demais, e o esquema implodiu.

O livro "No one would listen" não é exatamente uma narrativa desta história. É um livro autobiográfico de Harry Markopolos, um analista de investimentos que descobriu que Madoff era uma fraude já em 1999, mas não conseguiu convencer (quase) ninguém deste fato até o desfecho em 2008.

Tudo começou quando Markopolos foi encarregado de desenvolver um investimento que tivesse desempenho aproximado ao fundo de Madoff. Logo ele concluiu que isto era matematicamente impossível, e o fundo tinha de ser uma fraude.

A partir dessa premissa, Markopolos e mais um punhado de amigos puseram-se a investigar que tipo exato de fraude ou crime estava sendo cometido. No começo pensaram em alguma modalidade de insider trading, mas o volume monstruoso do fundo era muitas vezes maior que os mercados nos quais Madoff alegava ganhar dinheiro. (O tamanho total do fundo era um segredo guardado a sete chaves, mas com o tempo Markopolos falou com todos os grandes investidores e fez a soma.)

Este é o aspecto "nerd" interessante do livro: as primeiras "provas" a respeito da fraude foram baseadas em matemática. Algumas provas dependiam de matemática avançada, mas outras eram simples contas de padeiro.

A sub-trama tragicômica consiste nas repetidas tentativas de avisar outros investidores e o SEC (Securities Exchange Commission, equivalente à CVM do Brasil) sobre a fraude, sempre sem sucesso.

Embora o SEC tenha tomado o maior frango, outras pessoas e entidades também ignoraram os avisos, inclusive a grande imprensa. Madoff era simplesmente uma unanimidade, todo mundo acreditava nele, e queria continuar acreditando.

Ave de mau agouro

O livro é um alerta triplo contra recomendações de analistas para investir nesta ou naquela coisa.

Além de analistas serem cooptáveis e/ou simplesmente deixarem-se contaminar pela moda do momento, Markopolos mostra que o jogo pode ser ainda mais sujo.

Ficou claro para Markopolos que ninguém realmente apreciava ser advertido. Mesmo os que tinham lá suas desconfianças a respeito de Madoff acabavam caindo num discurso do tipo "não pode ser" e preferindo desprezar a ave de mau agouro.

O SEC sentia-se ultrajado na sua condição de guardião dos mercados. Como é que um analista trabalhando sozinho poderia enxergar mais que uma autarquia inteira? Carreirismo e arrogância cegaram quem deveria estar de olhos sempre abertos.

Outro aspecto é o baixo (ou inexistente) estímulo à delação e à detecção de fraudes. Note que estamos falando de EUA, não de Brasil. Markopolos cita uns quatro ou cinco casos de pessoas que "sopraram o apito" e acabaram arruinadas, ostracizadas, até agredidas fisicamente.

Os programas de delação premiada prometem recompensas vultosas, mas o valor e o pagamento efetivo dependem de decisões discricionárias — que na prática são quase sempre negativas. O número de recompensas pagas pelo SEC em toda sua existência se conta nos dedos de uma mão, e o valor total delas não compraria mais que um carro popular.

Estes fatos encerram uma lição interessante: quem lacra não lucra. Se você é portador de más notícias, tente ganhar o máximo que puder de posse da informação, e no mais, fique quieto. Tentar avisar a turba é perda de tempo e fonte de incomodação.