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Resenha: Complexo de sabotagem, de Colette Dowling

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2016.08.26

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Em primeiro lugar, gostaria de me desculpar por estar escrevendo pouco nos últimos tempos. Um amigo muito próximo morreu há uns meses e isso caiu como uma bomba de efeito retardado na alma. Não há aspecto da minha vida que não esteja a meio-pau neste momento. Não produzo bem no trampo, não escrevo, não tiro fotos.

O fato mais enfurecedor, mais incômodo, para mim pelo menos, nem foi a morte em si. Foi o fato de ter aparecido pouca gente no velório e no enterro. Eu sei que o morto não volta se o quórum do velório for grande; mas é uma questão de respeito e consideração com a família. É como naqueles filmes da Máfia, onde o maior insulto imaginável é não ir no enterro do capo. O Emanoel era uma pessoa bem mais sociável do que eu, e ainda assim... Deu uma ideia bem clara de quão sozinhos estamos no mundo atual.

Mas enfim, mesmo nesta fase ruim continuo sendo um leitor contumaz, e mais ainda quando se passa uns dias num hotel de cidade pequena onde a Internet é precária. Até onde sei havia apenas uma revistaria na cidade e comprei todo o "encalhe" de livros que eles ainda tinham.

O mais interessante do lote foi o "Complexo de Sabotagem" (título em inglês: Maxing Out) de Colette Dowling. É um livro de 1996, então está um pouco datado, fora que a autora já estava na meia-idade e isso reflete nas espectativas "Anos Dourados" que ela demonstrou ter a respeito da vida e do sexo oposto. Mas como no Brasil o status quo está sempre atrasado uns 20 anos, tem muita coisa válida para os dias de hoje.

A mensagem central é que as mulheres têm de assumir o controle das suas finanças, tanto do lado do ganho como do gasto. Essa mensagem é pintada com tintas bem carregadas, a ponto da autora afirmar que uma mulher não deveria ter filhos que não pudesse sustentar sozinha. Gostei disso, primeiro porque é algo que de fato acontece com freqüência alarmante; segundo e principalmente porque grava a ideia a ferro em brasa.

Uma tese central do livro é que o sexo masculino lida melhor com dinheiro (discutível, mas as críticas vêm depois) simplesmente porque é obrigado a isso — porque existe a expectativa social de que o faça. A família sustenta uma filha adulta muito mais prontamente que um filho adulto, por exemplo. Também fica o conselho sub-reptício de não assumir trabalho doméstico/não-remunerado hoje (e.g. cuidar da tia-avó do cunhado porque a família fez aquela chantagenzinha emocional básica) visando uma retribuição difusa futura que provavelmente não virá.

Bem, nisto sou experiente. Meu pai cuidou dos interesses dos genitores a vida inteira e nunca recebeu nada em troca por isso, nem um tapinha nas costas. As cobranças para fazer mais e mais rápido, essas choveram. (Aqui também vou especar outra crítica ao livro: o ginocentrismo.)

Todo o livro é recheado de anedotas, ou seja, situações reais passadas pela própria autora e por pessoas que ela entrevistou. O texto cumpre bem a função de divertir além de informar. Nesse ponto o livro é "autêntico", até com um toque de humor inglês negro, porque o principal "causo" é da própria autora, que alega ter perdido tudo que tinha, v.g. duas casas e todo o fundo de aposentadoria.

A análise dos porquês da mulher típica estar sempre enrolada com as finanças empresta bastante do best-seller da mesma autora ("Complexo de Cinderela") que não li. Cinderela teve a vida magicamente consertada por um agente externo todo-poderoso, e segundo a autora as mulheres são educadas para esperar o príncipe encantado. Fiel ao estilo, novamente Colette ilustra com sua própria experiência, quando tentou, aos 45, escritora consagrada e com três filhos, encostar-se financeiramente no novo marido de 35. (E ele ainda deixou isso acontecer por um ano inteiro. A lábia dela deve ser legendária.)

Minhas críticas ao livro são mais ou menos as que se levantaram em outras resenhas. Começando pelo ginocentrismo. Acredito que lidar com dinheiro é difícil para ambos os sexos, e o livro perdeu a oportunidade de cobrir de forma neutra algumas características que são da espécie e não do gênero. Exemplos: incapacidade de adiar o prazer, não enxergar processos exponenciais, sacrificar a segurança financeira a fim de tornar-se mais atraente ao sexo oposto...

Pode ser que um homem não perca tardes inteiras em lojas de roupas e maquiagens (alegadamente a mulher faz isso para fazer-se atraente ao "príncipe encantado") mas nós homens também gostamos de coisas caras, tipo automóveis, barcos. Mais de um homem já comprou um automóvel acima de suas posses porque, sejamos anedóticos nós também, o automóvel ajuda na taxa de sucesso com o sexo oposto.

O livro tem um sobretom forte de crítica ao sexo masculino. Sempre um homem é o "culpado primário": ou era o pai que mimava a filha (e isso "explica" a dependência do marido), ou era o pai que não tinha dinheiro para a filha (e isso "explica" a escolha de um marido fracassado), ou o marido que recusou-se a deixar a ex-princesa em excelente situação financeira depois que esta última pediu o divórcio, tem até o marido que morreu novo e (suprema audácia!) nem deixou uma fortuna para a viúva! Fica sempre aquele binômio algoz-vítima.

Pode ser que, como as histórias são anedóticas, elas reflitam o sentimento do momento, e também pode ser que esse tom sirva para carregar as tintas na hora de passar a mensagem principal. Mas alguém pode entender errado: poderia entender que se os homens fossem bonzinhos (e clarividentes) o suficiente, o livro seria desnecessário.

É aquilo que já falei de forma esparsa em outros posts: o feminismo trabalhou para libertar a mulher, mas parece ter presumido inocentemente que os homens ficariam paradinhos no lugar, trabalhando para pagar pela enorme casa de subúrbio com cerquinha branca. O estereótipo da mulher branca de classe média-alta, que larga a carreira para ter 3 filhos e depois decide virar poetisa, que acha que tem todas essas opções graças ao feminismo, só pode existir na medida em que o outro fica lá quietinho, pagando as contas.

Isso não é pecado, nenhum movimento tem obrigação de resolver todos os problemas do mundo. Por isso mesmo o feminismo não tem autoridade para dizer nada sobre o angst masculino, que eu afirmo que existe na sociedade atual, e tantos amigos feministas acham que é bobagem. Aliás, nada mais patriarcal que isso, negar que um homem possa ter um problema. Só faltou dizer que é coisa de fresco... Se os MRAs usam discurso de ódio para explorar esse angst e com isso ganhar hit$$$$$ na Internet, isso é outro problema.

Por último, ainda nessa linha do vitimismo, acho que a autora presumiu vezes demais que as mulheres delegam sua segurança financeira por pressão social. A navalha de Occam tem uma explicação melhor: preguiça pura e simples. Cuidar das próprias finanças é difícil, trabalhoso e estressante, ainda mais quando se tem família. Largar esse pepino na mão de outra pessoa, e culpá-la se algo desse errado no futuro, é algo que eu faria, se tivesse a opção. Naturalmente, chamar as pessoas de preguiçosas não seria uma boa tática para vender livros, então devo desculpar essa.

As igrejas evangélicas são essencialmente uma manifestação reacionária. Se é assim, por que essas igrejas estão cheias de mulheres, que em tese tiveram o maior ganho de direitos e autonomias nos últimos 50 ou 60 anos? Isso dá uma tese de doutorado, mas meu palpite é que elas procuram lá uma espécie de "patriarcado benevolente", com os muitos direitos de 2016 e os poucos deveres de 1940 — porque viver integralmente em 2016 é uma perspectiva assustadora.

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