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Somos todos demônios?

2020.04.28

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Esses dias assisti um vídeo do Átila Iamarino sobre meritocracia. O vídeo usa um brinquedo, o Tabuleiro de Galton, para ilustrar o fato que a sorte e a posição social de berço são os fatores mais importantes para determinar seu sucesso na vida.

O que eu entendi do vídeo é que a forma mais eficaz de garantir que a maioria das bolinhas caia mais para a direita, ou seja, para que mais pessoas "cheguem lá", é inclinar o tabuleiro para a direita, ou seja, proporcionar condições de fundo (principalmente educação) que aproveitem a todos. Os anglófonos têm uma expressão para isto: a maré alta faz subir todos os barcos.

Com isso eu concordo, e acho que a grande maioria concorda. Sim, existem as "barbies fascistas", pessoas ao mesmo tempo cobiçosas e com uma visão extremamente hierárquica do mundo, que acham até bom que a excelência dependa apenas da sorte para que a elite seja rarefeita. Mas são minoria.

Também é previsível que esse tipo de vídeo atraia um outro tipo de gado, que berra que "meritocracia não existe!", que tudo depende da sorte e que portanto ninguém faz por merecer nada. Lembrei logo dos meus ex-amigos do #d00dz, que professavam ideias semelhantes num dia, para no dia seguinte reclamar de algum parente preguiçoso e pedinchão.

Pessoalmente, me sinto ultrajado quando o gado de esquerda solta essas frases de efeito, "ah, quem se deu bem na vida é porque o papai ajudou, pagou escola". Geralmente quem fala essas merdas é gente jovem, solteira e sem filhos. Gente que não sabe o enorme esforço que é tentar criar um filho direito, não sabe quantas escolhas de Sofia você faz todo dia.

Claro, existe um conflito embutido entre o individual/familiar e o coletivo. Todo animal, todo ser vivo tem o instinto de propagar seus genes; quer que sua prole sobreviva e, se possível, ocupe uma posição alta no poleiro. Por outro lado, não vale nada estar no alto de um poleiro vazio. A competição intra-espécie tem seu papel: de outra forma os pais dedicariam menos recursos à prole. Mas também tem de haver cooperação a fim de manter uma massa crítica.

Talvez a melhor crítica que encontrei nos comentários do vídeo seja a seguinte: nós não somos meras bolinhas que vão batendo nos pregos e caindo aleatoriamente para qualquer lado. Nós temos alguma autonomia (não total autonomia, claro) sobre para que lado a gente vai.

Neste ponto me lembrei do "demônio de Maxwell", um exercício de pensamento do físico de mesmo nome. Imagine dois compartimentos A e B cheios de gás, ligados entre si, porém o fluxo entre eles é controlado por uma válvula microscópica. Alguém, talvez com poderes sobrenaturais, controla a válvula, abrindo-a apenas quando uma molécula de gás venha na direção A-B. Depois de um certo tempo, teríamos um vácuo em A e o dobro da pressão em B.

À primeira vista, o demônio de Maxwell é um compressor de ar perfeito, que diminui a entropia do sistema sem realizar trabalho, afinal ele só abre a válvula e a molécula passa, não há nada empurrando as moléculas para o lado B. Poderia ser a base de um moto-contínuo...

É lei universal que motos contínuos não existem, mas provar exatamente como o demônio de Maxwell falha em seu intento, é uma discussão que rola há tempo e ainda não teminou.

Penso que, noves fora a violação da segunda lei da termodinâmica, somos demônios de Maxwell: de um meio ambiente que nos bombardeia com fatos aleatórios de todo tipo, absorvemos ou deixamos passar conforme o nosso interesse.

Outro momento em que penso que somos demônios de Maxwell é quando jogo Candy Crush. Assumindo que a distribuição original das peças seja aleatória, o que a gente faz é extrair a (pouca) entropia para formar as combinações. Em geral, depois de fazer os pontos disponíveis, a distribuição que sobra é extremamente pobre, dificultando prosseguir no jogo.

Um detalhe é que o Candy Crush não é completamente aleatório; de alguma forma ele joga as peças que a gente precisa de vez em quando, presumindo que vamos saber usá-la. Isto é feito na medida para que falhemos algumas vezes em completar uma fase, de modo a adquirir os "boosts" da loja, mas sem deixar atingir o limite de frustração do jogador que teima em resolver uma fase sem auxílios.

Então volta a discussão da meritocracia. Quem completa a notória fase 65 do Candy Crush tem algum mérito por isso? Nesse ponto talvez você esteja curioso para saber o que eu acho da tal da meritocracia.

Na verdade, é uma palavra de que não gosto muito. Ela atrai reações apaixonadas de extremistas de ambos os lados.

Existe um paradoxo na meritocracia. A rigor ela não existe. Afirmar que ela existe pressupõe um "pipeline" eficiente, que pince talentos – onde quer que estejam, tenham nascido em berço de ouro ou em manjedoura, dê educação adequada, encaminhe para um primeiro emprego adequado, etc. etc. Poucos países do mundo têm sequer um arremedo disso, e o Brasil definitivamente não tem.

Por outro lado, mesmo não existindo, a meritocracia tem de ser perseguida. Do contrário, sobrevém a mediocridade. Por exemplo, todos os astronautas que foram à Lua eram homens e brancos. É óbvio que o pipeline social privilegiou por sexo e etnia. É possível que houvesse por aí gente mais talhada para a função do que John Glenn e Neil Armstrong. Mas isto não é culpa deles, nem tira o mérito de quem correu risco de vida e fez enormes sacrifícios pessoais para chegar no espaço e na Lua.

Muita gente confunde a inexistência da meritocracia com "qualquer mané pode fazer isso aí", como se bastasse despejar recursos sobre qualquer pessoa para fazer dela um profissional em qualquer área. Não acredito nisso, e nem o barbudinho mais aguerrido acredita nisso quando se trata de artes, como música, pintura ou escultura. Do meu ponto de vista, toda profissão tem um lado artístico, e todo aquele que é excelente na sua profissão é um artista.

Então, em vez de 'meritocracia', eu prefiro a palavra 'excelência'. Meritocracia tem uma conotação de competição; excelência, não necessariamente.

O que me leva ao outro problema: buscar a excelência é uma coisa que brasileiro não faz. O Brasil é um país enorme, porém nunca ganhou um prêmio Nobel. Até o Chile já ganhou dois!! Mas este assunto vai ficar para um próximo texto.