Site menu Somos todos demônios? Um adendo

Somos todos demônios? Um adendo

2020.10.30

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Lembrei hoje de algo que tinha em mente quando escrevi o artigo "Somos todos demônios?" porém acabei esquecendo.

No artigo, comentei que somos pequenos e ineficientes demônios de Maxwell. Não temos muito controle sobre o que vem até nós, mas procuramos diminuir a entropia acreando o que nos interessa e deixando passar o que não nos interessa.

A experiência que melhor ensina que c'est la vie, é pilotar um barco a vela. Não se pode controlar o vento. Quando o vento está fraco e sopra contra nossa direção geral (e há 50% de chance de a correnteza também estar contra), o que resta é aproveitar bem cada lufada, ganhando uns poucos metros aqui, outros ali.

E o mais importante: tentar não perder todo o avanço nos intervalos sem vento. E se perder, não dá pra desistir. A alternativa é naufragar — para qualquer definição de naufragar. No caso de um dingue numa enseada, é simplesmente pular fora e puxar o barco até a beira. Mas ainda é uma derrota, uma pequena morte.

Acredito não seja por acaso que tantos bilionários sejam iatistas. É uma via de mão-dupla: a mentalidade necessária para pilotar um barco a vela é semelhante à do "fazedor de dinheiro". Ele entende que "fazer dinheiro" é um processo contínuo de acrear um dólar neste minuto, deixar de perder um dólar no próximo minuto, enxague e repita. Por outro lado, o ato de velejar exercita a mente para a vida real.

Essa atitude mental também explica alguns "absurdos" que encontramos na vida corporativa, do tipo cortar o cafezinho ou reaproveitar clipes de papel. Parecem providências inócuas, e consideradas isoladamente são mesmo inócuas. Mais freqüentemente, são medidas políticas, tomadas para sinalizar à tribo que a grana está curta. Porém, elas também sinalizam algo maior: que o lucro de uma empresa (ou de qualquer entidade) é o resultado de um bilhão de pequenos sumidouros de dinheiro que foram localizados e suprimidos.

Ao contrário do que muita gente pensa, velejar não precisa ser um esporte caro. Comprei meu Laser por 4 ou 5 vezes o custo de um caiaque. Naturalmente, é preciso morar perto do mar ou de algum corpo de água suficientemente grande. Mas se você quer mesmo velejar, pode guardar o barco numa marina.

Talvez haja uma relação semelhante entre a "mentalidade de gente rica" e o golfe, embora me fuja qual seria. Talvez a necessidade de praticar exaustivamente? Além de parecer difícil, não vejo graça alguma no golfe. Diz a lenda que Bill Gates pergunta a todo candidato a executivo qual é o "handicap" dele no golfe. Se responder, não é contratado; nego bom o suficiente para trabalhar com Bill Gates não perde tempo com golfe.

A outra coisa sobre veleiros, é que eles estão sempre quebrando. É preciso ter uma boa capacidade de improvisação, e principalmente um estado mental que aceite sempre haverá algumas surpresas no passeio. Mesmo que nada quebre, cada viagem é diferente: muda o vento, mudam as correntes, até o fundo do canal muda de uma semana para outra.

Neste ponto, descobri que velejar não era exatamente a minha praia. O nível de incerteza, ou a exigência de capacidade de improvisação, estava acima da minha zona de conforto. Mesmo assim, foi uma experiência edificante, que recomendo a qualquer um.