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Nerds canhotos e saciedade moral

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Basta freqüentar (*) por alguns dias o Slashdot, e talvez o Hacker News, para constatar que os nerds têm uma posição política duplamente canhota, com baricentro (**) na centro-esquerda liberal. É o quadrante inferior esquerdo do teste Political Compass: favorável à igualdade econômica, muita intervenção do Estado na economia, mas o mínimo possível de interferência desse mesmo Estado nos costumes e questões morais.

Não entendeu? Pense no nerd como um Bolsonaro virado do avesso. Em todos os aspectos: o Bolsonaro tem um talento natural para comunicar-se com o homem comum, coisa que o nerd típico não tem. Ninguém é imune; eu concordo com grande parte das idéias do Jean Wyllys e com quase nenhuma do Bolsonaro, mas acho o primeiro um chato de galocha e receberia o segundo com muito prazer para um churrasco aqui em casa. (Não gostou disso? A ponto de me execrar? Sugiro ler o texto até o final, tenho um recado para você.)

Os países escandinavos, ou mais precisamente a imagem que esses países "vendem" para o mundão, são o nirvana do nerd. Também é certo que o melhor que pode acontecer para um nerd é justamente nascer num destes países, para ganhar sua educação gratuita de qualidade e depois emigrar para os EUA ;)

Nem eu, o mais burro dos nerds mas ainda um nerd, escapo desta tendência. Na minha própria concepção de mundo, sou de direita e conservador (curioso como esse negócio de auto-imagem funciona, né?) mas basta uma conversa mais longa com um interlocutor de direita para me fazer lembrar que não é exatamente essa a direita com que me afino.

Mas por que os nerds são canhotos? A resposta curta: Os nerds estão certos. O resto do mundo faria bem em seguir o que os nerds prescrevem. Daqui para frente, só vou esmiuçar essa verdade básica.

Vamos começar pela parte fácil: a tendência liberal. O nerd desconfia de toda e qualquer autoridade (o que é diferente de desobedecer à autoridade). Também valoriza imensamente a liberdade individual, porque essa é a matéria-prima da evolução científica e tecnológica. O zeitgeist nerd nasceu nos idos dos anos 1970, na época do paz-e-amor hippie. Pode ser que um Steve Jobs tenha feito muito mais pela humanidade que um milhão de hippies maconheiros, mas foi aquele caldo de cultura que produziu Steve Jobs, e produziu muitas outras maravilhas.

O nerd tem motivações pessoais muitíssimo diferentes de um ser humano normal, e ele reage de forma muito diferente aos incentivos e desincentivos típicos. Isso o torna, ao mesmo tempo, uma pessoa extremamente útil à sociedade, e uma pessoa que compreende muito mal o seu semelhante. Você conhece um funcionário público que trabalhe com afinco? Esse é nerd com certeza, porque os incentivos (salário padronizado e não relacionado à performance) levam o ser humano típico a amolecer.

Aliás, um nerd aceitaria sem problema nenhum um sistema econômico onde cada pessoa ganhe um salário uniforme e modesto, desde que fosse digno. Conheço muita gente mais inteligente que eu que aceita trabalhar por pouco dinheiro, seja porque não almeja um padrão de vida maior do que já tem (afinal, crescimento exponencial é insustentável!), seja porque o nerd dá um peso muito maior para a qualidade de vida fora do trampo.

O lado B é que a visão humanista extrema do nerd leva a enganos monumentais. O nerd típico acredita que se você pegar qualquer pessoa na rua e dar os incentivos adequados (apoio, salário, treinamento), ela vai desempenhar proporcionalmente bem. Também acredita que é tudo uma questão de nível social e de oportunidade: o mérito ou talento de cada pessoa seria simplesmente o somatório do investimento em educação e cultura despejado sobre ela, portanto função única do nível sócio-cultural familiar. Tanto isso não é verdadeiro que nerds só costumam trabalhar bem com outros nerds, e todo nerd sabe que é nerd desde que se lembra por gente; claramente ele não foi "fabricado".

Um amigo (nerd, claro) me disse uma vez: dado o meu berço e minha formação, não cumpri nada mais que minha obrigação na vida em termos de realização profissional e financeira. Eu concordo e discordo com ele, ao mesmo tempo. Concordo porque realmente o vento soprou a favor praticamente o tempo todo, e mesmo assim não me tornei um Mark Zuckerberg. E discordo porque muita, muita gente não "chegou lá" tendo partido da mesma condição inicial. Então temos um conflito de visões. A primeira visão, totalmente nerd, é "entra porco, sai lingüiça". A segunda visão, baseada na observação empírica, prescreve que nem sempre sai a lingüiça.

Estas crenças humanistas são fundamentalmente de esquerda, e explicam parte da ideologia centro-esquerda do nerd. Tais crenças não são verdadeiras, mas têm um fundo de verdade. O sistema educacional tem de pinçar os excepcionais positivos e promovê-los. Se o sistema for ruim, apenas os nerds bem-nascidos vão conseguir realizar seu potencial, e isso é ruim para todo mundo, sem falar que esses nerds vão ter mais um motivo para perpetuar a mesma crença errônea supramencionada.

Por que os países comunistas foram tão longe, apesar de um sistema econômico totalmente furado? A minha tese é porque esses países possuíam a) trens; b) educação de qualidade. O item "a" foi um contrabando meu (mas sim, transporte eficiente de carga e de passageiros faz uma diferença brutal), com o item "b" muito mais gente deve concordar. Na Coréia do Norte, de alguma eles foram capazes de pinçar os nerds desde pequenos, e hoje eles estão conseguindo construir foguetes e bombas nucleares, apesar das limitações de recursos, de tecnologia e de liberdade individual.

Não que isso seja a receita para um país decente como alguns barbudinhos aqui do Brasil imaginam, nem que fazer bombas atômicas seja uma missão nobre a que um nerd devesse dedicar seu talento, mas não deixa de ser notório o que se consegue realizar com um bom sistema educacional — e quanto talento nós aqui do Brasil estamos desperdiçando pelo processo oposto.

Então podemos dizer o seguinte: mesmo quando o nerd erra, ele acerta. Uma filosofia profundamente humanista, onde eu enxergo e trato meu empregado como igual, onde eu acho que o filho do pobre tem de ter escola tão boa quanto o filho do rico, vai produzir bons resultados.

Renda mínima (Bolsa-Família e assemelhados) é um reagente muito eficaz na hora de separar nerds de não-nerds, mesmo quando de direita. O nerd enxerga nele um programa social eficiente, barato e que corresponde a um mínimo absoluto de dignidade humana que cada pessoa merece. A minha visão particular é a seguinte: Cuba tem a libretta, aquela cota mensal de alimentos que toda pessoa recebe. Se o capitalismo é melhor que o comunismo (e é), o primeiro tem obrigação em fazer melhor que o segundo em todo parâmetro. Eu acredito nos poderes da distribuição de Pareto (o que me distingue um pouco do nerd típico) mas não a ponto de admitir que gente desafortunada perceba menos que a "libretta"! Não é nem uma questão de matemática, é uma questão de vergonha na cara. Já um não-nerd de direita só enxerga o Bolsa-Família sendo gasto em fumo e cachaça.

Para o nerd, se um sistema econômico e social completamente novo, construído do zero, entrasse em vigor amanhã, isto seria algo perfeitamente aceitável. Nerds que trabalham com informática vêem "seu" mundo virar de cabeça para baixo a cada par de anos... uma mudança de capitalismo para eco-socialismo, daí para anarco-capitalismo, e em seguida para neo-mercantilismo espacial, seria uma aventura menos atribulada que a transição de Windows NT para Linux. Tentar diversas alternativas ao capitalismo até chegar em algo viável é o que se há de fazer! Exceto que sistemas econômicos e culturas emergem por evolução. "Enginheirar" essas coisas não costuma dar certo.

Boa parte dos nerds tem um traço de personalidade conhecido como "síndrome do impostor". É uma ansiedade que leva a pessoa a duvidar das próprias capacidades. Por um lado isto é uma válvula de segurança contra a arrogância potencialmente infinita que de outra forma tomaria conta. Já se disse que pessoas depressivas são "melhores" que as normais, porque mais prontamente ouvem críticas e assumem responsabilidade por seus atos (desconfie de "depressivos" que se arvoram em palmatória do mundo).

Por outro lado isto leva a alguns exageros. De vez em quando vem a manchete: ciência, computação, engenharia são as áreas maaaaais misóginas, maaaaais machistas, maaaais excludentes de minorias. Sinto muito dizer, ou regozijo-me em dizer, que não são. É óbvio que essas mazelas humanas também afetam as profissões com maior concentração de nerds, mas dizer que são as piores é apenas outra manifestação da síndrome do impostor. Ou, numa visão mais bondosa, é resultado da sensibilidade acima do normal que o nerd tem a respeito destas mazelas.

Mas nerds podem ser muito teimosos também, e afeiçoam-se às suas próprias opiniões como qualquer pessoa normal. Sempre que coloco minha opinião sobre o assunto, vem a resposta: "você só enxerga seu mundinho"; "você mesmo é misógino", "se você não vê o problema é porque está dentro dele", e por aí vai. O nerd ignora facilmente que está pregando para o coro, e pelo menos as opiniões dos participantes do coro deveriam ser consideradas, não rechaçadas tão prontamente. O patrão que assedia as empregadas, o marido que bate na mulher, esses não estão lendo o que você nerd escreve nos blogs e no Facebook :)

Uma noção que aprendemos no Direito é o "dever ser". O nerd fica facilmente preso no mundo do "dever ser", em contraste com o que o mundo realmente é. Ramos da ciência como psicologia evolucionária são anátema para o nerd, em particular porque a) nega a crença da dominância da mente sobre o corpo, e b) propõe-se a explicar como as coisas são, e não como "deviam ser".

Outro raciocínio que desenvolvo a respeito deste tema é: se os nerds têm uma consciência social tão aguda, porque os problemas sociais no seio nerd não se resolvem num átimo? Ou, falando mais genericamente: se tanta gente no Facebook professa idéias de esquerda, de inclusão social, por que o status quo não muda na velocidade da Internet?

No próprio Hacker News surgiu uma hipótese interessante esses dias: a saciedade moral. As pessoas (nerds ou não) professam idéias bonitas, e sentem-se saciadas; sentem que fizeram sua parte. Falar apaixonadamente de igualdade social e ter empregada em casa não faz sentido. Como disse o Zizek (acredito citando outrem) o mestre que é bom para seus escravos é, num certo sentido, pior que o mau mestre, porque perpetua a escravidão, faz crer a todos os envolvidos que pode haver uma escravidão "boa", ocultando o elefante na loja de louças: que 99% dos mestres sempre abusarão do poder, porque assim é o ser humano.

Já se disse que o inventor da máquina de lavar fez muito mais pelo sexo feminino que o feminismo. Assim como a liberdade e os direitos humanos dependem fundamentalmente da tecnologia que permite produzir alimentos para todos sem exigir que 90% da população trabalhe no campo. Se faltasse comida, as pessoas seriam coagidas a trabalhar no campo, ponto. Nessa linha, eu acredito piamente que tecnologia é a matéria-prima da melhora da condição humana.

Outra instância, talvez ainda mais patente, de saciedade moral é esse barulho em torno da cesariana. Agora todo mundo é a favor de parto normal, parto natural em casa... Mas na prática todo mundo faz cesariana! "Ah, mas foi problema médico X". "Ah, mas foi recomendação Y". Sempre têm uma desculpa; parto normal é para os outros. Mas não tem problema, porque já fizeram sua parte pregando as benesses do parto natural no Facebook, não é? As pessoas em geral, nerds incluídos, também têm a tendência de cair na "falácia naturalista": tudo que é natural é bom (ou melhor, "deveria ser" bom). O resultado dessas ideologias não é inócuo: na maternidade pública aqui perto de casa, de vez em quando morre uma mãe ou um bebê porque forçam o parto normal até o último. Pessoalmente, que não sou médico nem nada, mas só estou aqui porque existia cesariana, acho que parto normal é pra bicho (e cesariana é costumeiramente feita com pets, também).

Mas voltando à pergunta: como é que com tanto petralha, digo, gente com consciência social na Internet as coisas não se endireitam mais rápido? Um fator que já mencionei é a saciedade moral, mas suspeito que muita gente esteja "posando de nerd" pelo Facebook afora pra ficar bem na fita. Quando eu mencionei no FB que receberia antes o Bolsonaro que o Willys em casa, fui execrado, alguém respondeu com um daqueles sofismas típicos de FB, algo como "se você não apedreja o Bolsonaro você é como ele", etc. Totalmente previsível. Essa gente deve se achar com muito mais "consciência social" do que eu. Ahã... só mostro com truco!

Notas:
(*) Que se lasque essa reforma ortográfica.
(**) Baricentro significa "centro de massa". A ideologia dos nerds é obviamente muito variável e cobre todo o espectro político, mas há uma concentração maior na centro-esquerda, e a média também recai por ali.

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