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2016.04.14

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Querendo entender por que tanta gente admira o Olavo de Carvalho, decidi dar uma olhada nos livros dele.

Já que nos vídeos não há muito que admirar. É fato que ele tem memória e conhecimento enciclopédicos — faculdades que ele usa mal, lançando mão continuamente do "truque de consultor McKinsey": despejar uma tonelada de informação verdadeira mas não-relacionada em cima do interlocutor, a fim de "provar" que tem razão.

Assim, de tsunami em tsunami verbal, ele "prova" (para alguns) que a Relatividade é uma farsa, que o heliocentrismo é uma farsa... Assim como há uma parcelinha da população que coloca o cérebro no congelador quando o Lula vitupera falácias pueris (exemplo: "quem critica a bagunça do aeroporto é porque não gosta de ver pobre voando de avião!"), é triste constatar que há uma parcela igualmente populosa ávida por falácias com sinal ideológico contrário.

Não se trata de criticar o conservadorismo do Olavo. Eu mesmo sou conservador. Meu componente eletrônico predileto é o indutor (peço perdão aos leitores não-nerds que não entenderão a piada). Também não é errado ter uma opinião mais positiva que a média sobre o catolicismo medieval, ou sobre o regime militar. Nem mesmo a crença em astrologia me escandaliza. Eu mesmo acredito um pouco nela, e em biorritmo também.

Agora, quando o homem começa a falar da Grande Conspiração Gramsciana... Deus nos acuda.

Também dá pra notar que os vídeos mais antigos do Olavo são melhores. O que é uma forma delicada de dizer que ele vem piorando com o tempo. Por exemplo, esta é uma entrevista em que ele participa construtivamente, exaltando os valores do catolicismo como mais tolerantes em relação a pequenos deslizes sexuais, comparativamente ao protestantismo (o contexto era o escândalo Clinton × Mônica Lewinsky). Até pela quantidade de ruído que o Olavo normalmente produz, a perspicácia da observação dele foi marcante.

Voltando aos livros, eu gostaria de ler algo escrito pelo Olavo a fim de confirmar ou negar as impressões colhidas nos vídeos. Mas, já desconfiando qual seria o veredito, decidi que jamais meteria a mão no meu bolso para fazer isso. Depois de mendigar no Facebook, um amigo do tempo do INDT emprestou-me dois livros d'Ele: "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota", e "O Jardim das Aflições".

Espero que esse amigo não fique muito chateado. Achei os livros simplesmente intragáveis. Não consegui ir além de 1/3 do primeiro, e nada além de umas poucas páginas do segundo.

O livro "...idiota" até que começa bem. O ponto mais alto é a seção "Pobreza" onde ele mostra um lado solidário e caridoso. Nesse ponto, Olavo chega muito perto do que Alain de Botton escreveu em "Religião para ateus": que a substituição da caridade pessoal pela estatal enfraquece os laços sociais. Como ambos escritores são francófilos e (cada um à sua maneira) admiradores da Igreja Católica, é natural que esse paralelo tenha aparecido.

Olavo também demonstra não ser completamente refratário a questões históricas, como o ordálio imposto aos povos indígenas, aos negros feitos escravos, etc. ainda que ele discorde do conceito de "dívida social". Nem mesmo com a violência do regime militar ele concorda. É engraçado concluir que as maiores queixas brandidas pelos esquerdistas contra os conservadores — defender tortura e desconsiderar as raças não-brancas — não procedem nem mesmo em se tratando de Olavo de Carvalho.

Outro ponto bom do livro foi levantar a velha interrogação: por que o Brasil, sendo um país ocidental, relativamente avançado, com uma população tão grande, não consegue produzir mais excelência? O Brasil nunca levou um prêmio Nobel, a produção científica varia de ínfima a nula. A mediocridade, no Brasil, é considerada virtude. Isso é um fato. Olavo desanda logo a explicar isso em termos de conspiração gramsciana, mas sempre é pertinente levantar essa bola, provocar esta discussão.

Porém, de mais ou menos 1/6 do livro em diante, o texto fica rapidamente monótono. Tudo descamba para a mesma Grande Conspiração Marxista Gramsciana da qual ele fala nos vídeos. Conspiração essa que seria mundial, não apenas brasileira! Outro tema olaviano recorrente também dá as caras: como a vida na Idade Média era boa e a modernidade ferrou com tudo.

Para botar a cereja no bolo, não se trata de um texto estilo "Arquivo X", que instiga o leitor. É chatíssimo, intragável, repetitivo como um realejo.

Em geral eu não acredito em conspirações, mas se o texto que alega uma conspiração tem uma capacidade mínima de me entreter, eu sigo lendo. Um exemplo é "O Navio Invisível", de Charles Berlitz (o famoso linguista) que discorre sobre o "Experimento da Filadélfia" onde um navio teria sido teletransportado no tempo e no espaço em 1943. Da mesma forma que filmes como Matrix ou Star Wars nem poderiam ser reais de um ponto de vista técnico-científico; mas entretêm se imaginados na base do "Há muito tempo, numa galáxia distante...".

Infelizmente, nem nessa base foi possível prosseguir absorvendo os ensinamentos do Professor Olavo.

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