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Desigualdade crescente?

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2014.06.02

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Há toda esta celeuma recente sobre o tal livro do Thomas Piketty que disse o óbvio: que a desigualdade social está crescendo. Não li o livro, nem vou comprá-lo, minha escassa verba discricionária do resto do milênio já foi comprometida com outro brinquedo (mais sobre isto noutro post). Talvez eu leia o livro se alguém me mandar um exemplar :)

O Financial Times achou uns erros nas planilhas do autor, o que me fez rir gostosamente, já é o segundo economista em poucos meses que se atrapalha com o Excel (o primeiro foi este aqui).

Um amigo do Facebook também apontou que o livro não vai além de sugerir impostos e mais impostos para mitigar o tal problema. Se é mesmo assim, também não é novidade, é só mais um economista de esquerda demonstrando sua pouca criatividade na hora de propor soluções. Já resenhei outros do gênero.

Mas o problema — desigualdade crescente no mundo desenvolvido — foi corretamente apontado pelo economista francês. O Financial Times quis desmontar esta tese, mas não vai conseguir.

Conforme eu já disse no Facebook: diferente do meus amigos de esquerda, a desigualdade em si não me incomoda. A desigualdade de patrimônio e renda emerge em todo e qualquer sistema econômico, mesmo os que foram especificamente desenhados para evitar desigualdade.

A diferença é que no capitalismo a desigualdade serve a um propósito: otimizar o investimento da poupança interna. Quem tem dinheiro sobrando, pode correr o risco de investir num negócio. Quem tem muito dinheiro, investe aceitando retornos diminuídos e riscos maiores. A recompensa para quem investir bem, ou mesmo para quem tiver sorte, é mais dinheiro.

Numa economia planificada, e mesmo numa economia fortemente keynesiana, todo o esforço de poupança interna e todas as decisões de investimento têm de ser feitos pelo Estado. Em vez de você ter milhões de pessoas quebrando a cabeça para investir bem o excedente da economia, você delega essa tarefa um punhado de burocratas que não perde o emprego aconteça o que acontecer. Só pode dar errado!

Muito bem. Muitos certamente já ouviram falar da "distribuição de Pareto", aquela que é vulgarizada em ditados do tipo "10% dos clientes causam 90% dos problemas" ou "80% da receita de uma empresa vem de 20% dos consumidores".

De certa forma o capitalismo, por permitir a desigualdade grassar, força uma distribuição de Pareto na renda e/ou no patrimônio. Por outro lado, mais de um direitista defensor do capitalismo já inverteu este raciocínio: apontou a distribuição de Pareto como "lei natural" para justificar qualquer desigualdade.

Em cima da distribuição de Pareto, existe um conceito ainda mais poderoso: o ótimo de Pareto. Em linguagem vulgar, o ótimo de Pareto é a distribuição de Pareto que mais eficientemente aloca os recursos. Por exemplo, talvez seja bom que 10% dos clientes concentrem 90% dos problemas de uma empresa. (Imagine se 90% dos clientes fossem problemáticos.)

No mundo econômico, o ótimo de Pareto corresponde a uma sociedade desigual, mas onde a desigualdade cumpre seu propósito de forma plena, fazendo o melhor uso da poupança interna. Isto resulta, em termos absolutos, num nível de vida melhor para todo mundo, inclusive para quem está num quartil desfavorável da distribuição. ("1% de algo é muito melhor que 30% de nada.")

Uma economia pode estar fora do ótimo de Pareto "por baixo" ou "por cima". Os efeitos deletérios de forçar igualdade e sair do ótimo "por baixo" são mais bem conhecidos. Pessoalmente, vou hipotetizar, sem provar, que países como EUA já estão fora do ótimo de Pareto, "por cima".

A meu ver isto é um problema mais sociológico que econômico. O fato é que as pessoas acreditam que a desigualdade de renda é boa, natural e aceitável.

Reciclando outra coisa que já tinha citado no Facebook: um presidente da General Motors nos anos 1960 prescrevia que a diferença de salário entre o CEO e o faxineiro de uma empresa não deveria ser de mais de 20 vezes.

Quem propuser algo semelhante hoje em dia vai ser jogado num manicômio. A diferença atual média entre maior e menor salário é de 230 vezes! Quem diria, aquele capitalismo dos anos 1960, contra o qual tanta gente lutou, era na verdade um quase-socialismo.

Então, algo mudou para pior no consciente coletivo.

A mudança tem um pouco a ver com a natureza das ocupações mais em voga. Como citou o próprio Steve Jobs, um engenheiro de software talentoso é centenas de vezes mais produtivo que um engenheiro mediano. Já o melhor maquinista de trem do Universo talvez consiga fazer a locomotiva gastar 5% menos combustível, se comparado à média.

Estas diferenças vão refletir — têm de refletir — nas remunerações dos envolvidos. O que aumenta a desigualdade.

Ou talvez induza o consciente coletivo a aceitar com mais facilidade os ganhos extraordinários e fora de propósito dos CEOs. Afinal, mesmo os CEOs mais desastrados ganham zilhões. São socialmente mais daninhos que os burocratas keynesianos citados antes.

Mesmo supondo por um momento que a prática de pagar regiamente o "medalhista de ouro" de uma profissão qualquer, e pagar pobremente o medalhista de prata (porque a ideologia atual é esta) seja "honesta", ou seja, não existam CEOs energúmenos percebendo renda imerecida, mesmo assim a sociedade precisa parar para pensar se isto é uma alocação eficiente de recursos.

É certo que algum incentivo para as pessoas buscarem a medalha de ouro, tem de haver. O ser humano é preguiçoso no seu estado natural. (E a robusta produção econômica e cultural do mundo capitalista mostra que o incentivo da desigualdade, mesmo em dose acima da recomendada, funciona.)

Mas, para haver um campeão, é preciso que todos os demais "perdedores" aceitem participar do "show" e pagar mico. Esta participação tem valor por si só, e tem de ser devidamente compensada.

Do contrário, acontecerá o que está começando a acontecer nos países desenvolvidos: um monte de gente está desistindo antes de tentar, porque sabe que nunca vai ser "o melhor" e nunca vai perceber uma renda satisfatória. E isto prejudica todo mundo — até aos excepcionais positivos, no longo prazo.

O economista francês também cita no seu livro a questão da herança. Como não li o livro, não sei exatamente o que ele afirmou. Mas tenho uma boa estimativa. Já tive algumas discussões bastante instrutivas com o Osvaldo Santana a respeito deste mesmo tema.

Eis o que eu acho: herança não é um mecanismo particularmente provocador de desigualdade. Pode vir a ser, mas não é hoje. Os excessivamente ricos de hoje não são herdeiros de dinastias; os ricos de 30 anos atrás eram gente completamente diferente. O pessoal de esquerda é que tem este medo irracional que alguma família vá acumular dinheiro a ponto de tornar-se dona do planeta por conta dos juros compostos, analogamente a uma bola de plutônio que atinge a criticalidade.

O Osvaldo tem a proposta radical (e admitidamente utópica) de abolir o mecanismo da herança. O embargo que eu imponho a esta proposta é: a herança é um componente de proteção social, extremamente importante, que custa barato para o Estado e de quebra é um grande estimulante da poupança interna, mesmo quando os juros são muito baixos. Abolir a herança em favor de um conjunto de mecanismos substitutivos é possível, mas é proibitivamente caro.

Um capitalista mais otimista diria que o valor marginal do dinheiro é o suficiente para esfolar um herdeiro imerecido. Eu cá acho que a taxação progressiva de heranças é um bom compromisso, deixando intocada a função de seguridade social de pequenos espólios e reduzindo a ordem de grandeza de grandes heranças, na casa do bilhão. É até uma ferramenta de paz social, já que aquele medo irracional de dinheiro virar massa crítica é compartilhado por muita gente do povo.

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