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Resenha de livro: A arte de ɹɐsuǝd claramente, de Rolf Dobelli

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2015.11.12

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Mais um livro da série LVR Late 2015! Conforme o autor explica, e realmente transparece no texto, este livro é uma coletânea de artigos.

O título é positivo — "pensar claramente" — mas a lista de capítulos-artigos mostra que na verdade o texto trata de falácias, uma após a outra. As letras da palavra "pensar" estão de cabeça para baixo na capa do livro e mantive-as assim no título desta página com a ajuda da ferramenta Vira-Vira do Aurélio "Verde".

Interessante que não se trata daquelas falácias lógicas, que os sites de ateísmo adoram enumerar, e que na verdade já consultei várias vezes, para os mais variados fins; até os ateus têm um propósito dentro da Criação. (Isto seria um argumento teleológico ou uma falácia teleológica?)

O livro trata de falácias (ou ilusões) de um nível diferente, provocadas pela forma com que nossos cérebros funcionam, e em particular pela forma que evoluíram. Naturalmente, existe uma sobreposição entre os dois tipos de falácia, mas no geral são assuntos bem distintos.

Um exemplo é a falácia do custo irrecuperável (sunk cost). Pessoas, ou agremiações de pessoas, continuam investindo num projeto fracassado só porque o custo incorrido se acumulou. Governos e políticos parecem ser particulamente suscetíveis. Esta falácia é parente de outras: o efeito dotação (mais conhecido como o Efeito Bruder, em homenagem a um amigo que vendia os itens usados dele por preços muito altos, apenas porque "tinham sido dele"), e a aversão à perdas (cujo placebo mental mais acessível é simplesmente adiar a realização da perda).

No idioma alemão existe a expressão Nibelungentreue, literalmente "a lealdade dos nibelungos", uma lealdade que ultrapassa sua utilidade (segundo a lenda, os nibelungos recusaram-se a entregar um criminoso por pura lealdade e tiveram seu reino destruído por isso). Lealdade é universalmente percebida como virtude, mas precisa ter lastro para não ser falaciosa.

O autor bate bastante na tecla "quando os seres humanos primitivos viviam em tribos nômades de algumas dezenas de pessoas, a falácia X era útil para a sobrevivência". Certamente essa insistência vai aborrecer os criacionistas religiosos, bem como aborrecerá os criacionistas ideológicos, os [algumacoisa]istas de quermesse, etc. que não querem nem ouvir falar em psicologia evolutiva.

Por outro lado, algumas falácias vão agradar "a gregos e australianos", como a tragédia dos comuns, bem conhecida por conta das questões ambientais. Outra falácia abordada no livro, a incapacidade de lidar com processos exponenciais, eu já tinha abordado em outro artigo com exemplos de primeira mão.

O livro lembra vagamente outros textos que li sobre estratégias de investimentos, tipo "Axiomas de Zurique", talvez porque toquem todos num assunto em comum: como a psique humana nos leva a investir mal. Aversão a perdas, pagar caro demais por risco "zero", efeito manada, etc. etc.

Assim como o livro "De zero a um", este é um texto que merece ser lido várias vezes ao longo do tempo, vale por um exame de consciência, e é um dos poucos livros que me deu vontade de guardar e recomendar expressamente a meu filho para que leia assim que tenha a necessária capacidade de compreensão.

Seria legal juntar as idéias do livro com uma outra hipótese, a do "cérebro triuno", que fiquei conhecendo num livro chamado Os dragões do Eden de Carl Sagan (a idéia original não é de Sagan, é de um ilustre desconhecido, doutor Paul D. MacLean). Segundo essa hipótese, o cérebro humano tem três camadas essencialmente independentes: reptiliana, paleomamífera (sistema límbico) e neomamífera. Cada uma tem seu próprio tempo, sua própria visão de mundo, sua própria definição de "felicidade", e por aí vai.

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