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Adendo à resenha do livro A Arte de Pensar Claramente

2020.01.07

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A polarização política é um fato da vida. A discussão aguerrida entre Estado × mercado, ancaps × socialistas, palmeirenses × corintianos faz parte da vida diária hoje em dia.

É uma discussão inútil. Administração estatal e mercado não são arquiinimigos que digladiam pela hegemonia, no estilo "só pode haver um" do Highlander.

Na verdade, são as duas únicas ferramentas de administração econômica que demonstraram funcionar, ainda que de forma imperfeita. A humanidade já tentou centenas de outros métodos: servidão, escravidão, mercantilismo, campos comuns, tribalismo, teocracia, patriarcado, matriarcado...

De todas elas, sobraram apenas duas, e por ora o que parece funcionar é uma mistura dessas duas. Pelo menos enquanto não se inventar um método completamente novo. Aí resta o problema de determinar a estequiometia da mistura. A este problema, cada um tem uma resposta diferente, que depende do temperamento, das experiências pessoais e, naturalmente, dos interesses pessoais.

Por que isso parece "errado"? Para metade das pessoas, o capitalismo é anti-natural, para a outra metade, o socialismo é anti-natural. A explicação dada pelo livro "A arte de pensar claramente" é semelhante à oferecida para a maioria das outras falácias. Somos animais tribais, nossa unidade social instintiva é uma tribo pequena num mundo grande, sem cercas nem títulos de propriedade. Nosso método instintivo de administração econômica é o "campo comum", que pode ser uma pastagem ou uma floresta onde se pode caçar.

Tratar um bem econômico como um "campo comum" conduz à "tragédia dos comuns". Mesmo sendo tribal, o ser humano também é instintivamente ambicioso, e assim cada um tenta pastorear um rebanho cada vez maior, até que o campo comum se acaba por exaustão ou pisoteamento.

No mundo antigo, ainda se podia migrar para pastos mais verdejantes uma vez esgotado o primeiro, e segundo o livro "Uma história do mundo" é isso mesmo que os primeiros humanos faziam, deixando um rastro de tragédias ecológicas desde o alvorescer da humanidade.

Isso explica tragédias como a da Ilha de Páscoa, onde os nativos esculpiram e transportaram moais, até descobrirem que tinham exaurido todos os recursos naturais da ilha. Em retrospecto é risível, mas não está no arcabouço instintivo do ser humano prestar atenção ao fato de que mora numa ilha de tamanho finito, e geralmente não tem uma ilha bem ao lado para migrar.

Curiosamente essa informação estava na cabecinha faz um tempo, mas não conseguia lembrar de onde ela vinha. Achei que estava no "De zero a um", que reli duas vezes e nada de achar. Então imaginei que devesse estar no "A prosperidade do vício", mas este está emprestado e não tinha como conferir. Até que numa das releituras banheirísticas de livros velhos (ao menos eu evito usar o celular lá na casinha, já é alguma coisa!) apareceu a Margarida.