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Pianolas da Patagônia

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2012.07.11

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Eu gosto de ouvir tango. Mais uma entrada para a "lista de estilos musicais esquisitos que o epx ouve", ao lado do rap e do órgão de igreja. Podem rir agora.

Mas pelo menos eu sei por que gosto do tango: é a mistura aparentemente impossível de coisas opostas, como óleo e água, e em mais de uma dimensão.

O tango é ao mesmo tempo previsível e imprevisível. O ritmo e temática são bem marcados, repetitivos mesmo. Por outro lado a música sugere amores, paixões, tragédias, crimes passionais.

O tango enquanto música é indissociável do tango-dança. Ninguém discute que o tango é a dança mais sensual que existe. Eu não sei dançar, para mim dança é um fóssil evolutivo, é ritual de acasalamento, não diferente de um galo ciscando em volta de uma galinha. Até a postura de dançarinos de tango me lembra as aves. Assim sendo, tango é dança e dança é sexo.

Sexo é coisa das mais repetitivas e previsíveis, por outro lado é o que mais nitidamente nos distingue das máquinas; é o maior gerador de imprevisibilidade no ser humano. Sexo é necessariamente um ato agressivo, onde um organismo vivo invade e contamina outro. Por outro lado, dele pode resultar uma criança, que é a coisa mais pura que existe; e muitas pessoas só descobrem o amor verdadeiro através da paternidade ou da maternidade. O tango e o sexo compartilham desta profunda ambiguidade entre mecanismo e caráter, violento e amoroso, máquina e homem.

No nível artístico, o tango é a fusão de diversas influências culturais: africano, espanhol, indígena. Até o imigrante alemão, de fama tão circunspecta, deu sua contribuição ao tango com bandoneon e acordeon, instrumentos cujo som é "marca registrada" do tango. Você ouve alguém tocando acordeon, praticamente espera que o gaiteiro vá arriscar um tango a qualquer momento. Por outro lado, o som de um piano e de um violino também são muito bem-vindos no tango, embora sejam instrumentos associados quase que exclusivamente a música erudita, e culturalmente "estéreis".

O tango é assim, é esta mistura aparentemente impossível. Tango e samba são provas cabais que as culturas podem miscigenar-se e produzir algo novo, e melhor, que os vetores originais.

Numa das minhas "googladas" sobre tango, em que estava procurando uma interpretação de "Lluva de estrelas", topei com uma interessante lista de videos no YouTube. É de Horacio Asborno, um cidadão da Patagônia que possui uma coleção de pianolas, também chamadas de pianos automáticos.

Tendo passado a infância vendo Pica-Pau, já tinha visto diversas vezes os pianos automáticos em desenhos animados, mas nem sabia se existiam de verdade ou eram fabricados pela mítica ACME. Mas graças aos videos do seu Horacio, descobri que tais pianos realmente existiram, e eram uma forma bastante difundida de reproduzir música antes do gramofone.

Como deve ser óbvio, o gramofone comeu com farofa o mercado das pianolas, já que era um meio mais barato e mais versátil de reproduzir música (ou qualquer outro tipo de som).

Do ponto de vista de um informata, o aspecto mais interessante da pianola é como ela consegue ler as notas a partir de furos num rolo de papel. Isto numa época em que mal existia eletricidade.

O funcionamento da pianola é todo baseado em pressão negativa do ar, ou seja, vácuo parcial. O ar é sugado através de diversos orifícios (um por tecla), mas o papel (que passa bem esticado sobre a fila de orifícios) normalmente não deixa o ar passar. Quando há um furo no papel, o ar penetra, e a respectiva nota é tocada.

A pianola típica usa pressão negativa do ar para tudo: ler as notas do papel, bater as teclas, controlar os pedais, girar o rolo, manter ativamente o alinhamento do papel. Algumas pianolas usam bomba de ar elétrica. Outras têm de ser "pedaladas". Estas últimas dão alguma liberdade ao operador para "frasear" a música.

O Sr. Horacio mantinha um site [infelizmente já fora do ar, checado em 2015] onde descreve sua "história de amor" com as pianolas. O site é naquele estilão Web 1.0 "Geocities" mas contém um importantíssimo trabalho de preservação, tanto do instrumento musical quanto das melodias em rolos. A maioria dos rolos são, naturalmente, tangos, e foram produzidos na Argentina, na época em que tanto as pianolas quanto a Argentina estavam no auge.

Tais rolos são objetos únicos no mundo. Seu Horacio é mais uma daquelas pessoas que preserva a nossa "pequena História" com muito amor e sem receber nada em troca.

Há duas formas básicas de "masterizar" um rolo de pianola. A forma "mecânica" é ler a partitura musical e ir calculando onde fazer os furinhos do rolo. Obviamente, um rolo produzido assim vai soar mais "mecanizado", vai ser considerado de menor qualidade. E talvez atraísse a ira dos pianistas da época.

A forma "artística" de produzir um rolo é gravar a performance real de um bom intérprete. Isto só foi possível mais recentemente (pouco antes das pianolas atingirem seu apogeu, seguida da rápida decadência frente aos gramofones). Nos videos do Sr. Horacio, podemos ver que diversos rolos são assinados por seus pianistas-intérpretes.

Mesmo no segundo tipo de rolo, dá pra ouvir de longe que trata-se de uma execução automatizada. O tempo é muito regular, e a força das notas é sempre igual.

Algumas pianolas permitiam controlar o "volume" de cada metade do teclado, bem como o tempo; assim um bom operador podia mitigar a "frieza" da execução. Nos videos do Sr. Horacio, ele quase nunca usa tais controles.

Esta execução mecanizada não combina com determinados tipos de música. Mas soa curiosamente bem com o tango — pelo menos é a minha impressão.

E assim fecha-se o círculo: sendo o tango ao mesmo tempo mecânico e caliente, seu caráter permite-se transportar e executar por um método puramente mecanizado.

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