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Edifícios

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2015.11.01

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Quem disse que o Facebook é completamente inútil e apenas um campo de batalha entre coxinhas e petralhas? Participo de um grupo denominado 'Joinville de Ontem', onde aparece alguma fotografia antiga, e também muita fotografia de casas antigas e pequenos prédios antigos que ainda estão de pé.

Figura 1: Casa antiga nas imediações da rua Jaraguá, Joinville/SC

A sensação geral é que estas relíquias arquitetônicas precisam ser registradas fotograficamente o quanto antes, porque dia menos dia a casa cai — literalmente. Ressalte-se que a grande maioria dessas construções está em perfeita ordem e em uso, só que o processo de verticalização imobiliária é inexorável. Ainda há quadras inteiras com casas arquitetonicamente relevantes, elas não vão acabar de um dia para o outro, mas...

Figura 2: Casa antiga nas imediações da rua Jaraguá, Joinville/SC

Na dúvida é sempre prudente registrar qualquer coisa querida antes que desapareça. A verticalização está atacando particularmente rápido aqui na terrinha. No meu quarteirão, da minha janela, já duas casas que eu conhecia desde criança foram demolidas, deixando o terreno limpo para o próximo espigão. E só faz sete meses que moro aqui! O único possível sintoma de crise é que as obras não começaram ainda. Imagine a agradável paisagem chuvosa abaixo com um edifício no lugar de cada casa:

Figura 3: Joinville com a tradicional chuva fina

Tenho sentimentos ambíguos sobre a verticalização. Prima facie sou contra. Eu mesmo moro num apartamento, e um dos motivos de ter escolhido esta modalidade de moradia foi a segurança. Convenhamos que é um critério de borra, mas é o que a maioria considera em primeiro lugar, o que ofusca as vantagens (e as desvantagens) mais palpáveis. Quase que por definição uma casa é personalíssima e diz algo sobre seu dono, enquanto um edifício é anônimo.

Por outro lado, o urban sprawl à moda estadunidense é ecologicamente insustentável, principalmente se combinado com a ausência de transporte público decente. Cidades mais compactas, mais verticais, com as pessoas efetivamente morando perto do centro, são melhores. Um quintal não faz tanta falta se as principais atrações da cidade estão numa distância à pé. (Vou passar ao largo do problema da gentrificação, que afeta todas as grandes cidades do mundo.)

Talvez um edifício aumente a densidade de automóveis no seu logradouro (capacidade viária local é um dos argumentos mais comuns contra a verticalização) mas provavelmente esses mesmos automóveis vão rodar menos quilômetros, no total, do que se estivessem espalhados por condomínios fechados a 15km do centro. (*)

Entre outros motivos, teme-se a verticalização porque ela pode enfeiar a cidade. Geralmente é o que acontece, mas não precisa ser assim. Mas as construções precisam "colaborar", ou seja, precisam ser algo bonitas. A Europa é, no geral, bastante verticalizada, nem por isso as cidades são feias. Claro que Europa é Europa; os prédios respeitam a arquitetura local, e têm altura máxima de 4 ou 5 andares, o que evita a sensação sufocante dos "cânions urbanos".

A rua abaixo é agradável e bonita, apesar de ser totalmente verticalizada, porque os edifícios não são feios, a calçada está bem cuidada e mantiveram o calçamento de paralelepípedos, que eu acho muito mais charmoso que asfalto:

Figura 4: Rua Fernando de Noronha, Joinville/SC

Infelizmente, paisagens urbanas como a da figura acima são raridade no Brasil. E não tem mistério nem molho secreto: basta ter comportamento análogo ao gato, não fazer cocô onde dorme.

A uma geração inteira contaminada pelo mau gosto estadunidense, Steve Jobs ensinou que estética importa. Forma e função andam juntas. Uma cidade bonita, uma rua bonita, inspiram cidadania e boas maneiras. Por outro lado, feiúra de qualquer espécie induz a comportamento anti-social, seja a feiúra da favela ou a feiúra de uma fileira de edifícios indistintos ladeando uma rua sem árvores e com calçada maltratada.

Aqui no meu entorno, os prédios variam enormemente em qualidade estética. O germe de inspiração deste artigo começou numa caminhada noturna, onde um prédio em particular me pareceu atraente. De noite, só é possível ver a silhueta e luz de algumas janelas. Durante o dia, ficou claro que o perfil esguio (alto e estreito) era o "tchan" do prédio; uma qualidade que transparece mesmo à noite. É o edifício à direita na foto abaixo:

Figura 5: Edifício nas imediações da R. Fernando de Noronha, Joinville/SC

Um edifício bonito precisa ser, de alguma forma, único. Não há um prédio igual noutro quarteirão ou noutra cidade. Ele torna-se o símbolo de uma localização, tal qual o Empire State, respeitadas as devidas proporções. O arquiteto precisa mirar num objetivo: transformar o prédio num ponto turístico. Dificilmente ele vai chegar lá, mas talvez atinja o objetivo intermediário de acrescentar à paisagem. No mínimo absoluto a arquitetura precisa mostrar uma "assinatura" — você bate o olho no prédio e adivinha a construtora, por exemplo. Ao menos o blueprint da construtora tem de ser inédito em relação às demais.

Alguns outros espécimes que considero bonitos:

Figura 6: Edifício à R. Visconde de Taunay, Joinville/SC

Às vezes uma simples escolha de cores torna um imóvel divertido e único em relação aos demais:

Figura 7: Edifício à R. Eugênio Moreira, Joinville/SC

Os prédios que considero feios são estéreis; função acima da forma. Alguns são tão tecnocráticos, com enfeites que parecem aletas de refrigeração, que poderiam ser prédios de equipamentos. Ou prédios habitados por robôs. Ou talvez mesmo robôs gigantescos.

O espécime abaixo adotou um enfeite vertical metálico, como se fosse uma torre de fracionamento de refinaria:

Figura 8: Prédio nas imediações da R. Aquidaban, Joinville/SC

Os prédios feios são de uma arquitetura perfeitamente "neutra", que não evoca nada, talvez para não desagradar ninguém. Feiúra não é portanto a palavra correta para descrevê-los. Irrelevância talvez seja. São prédios que parecem ter saído de um projeto padrão do governo, porque você encontra edifícios praticamente idênticos nos quatro cantos do Brasil.

Figura 9: Prédio na R. Pernambuco, Joinville/SC

No exemplo acima tive pena e deixei a árvore enfeitar a foto, porque a rua é bonita e arborizada, o que redime um pouco o edifício (novinho) de cor de gosto duvidoso.

O exemplo abaixo é uma tríade de prédios feios, não muito novos. Até a cobertura do primeiro prédio é totalmente tecnocrática, o prédio todo poderia ser convertido em edifício comercial que não causaria a menor estranheza.

Figura 10: Prédios nas imediações da R. Paraná, Joinville/SC

Às vezes a escolha da pintura salva um prédio. E às vezes fica só na tentativa, como no exemplo abaixo. Nice try but no cigar.

Figura 11: Prédio nas imediações da R. Concórdia, Joinville/SC.

E mais um exemplo, muito apropriadamente avizinhado de uma filial do Subway:

Figura 12: Prédio nas imediações da Via Gastronômica, Joinville/SC.

Prédios mais antigos da linha "feia" eram completamente quadrados — muito embora o simples fato de ser quadrado não condene automaticamente um projeto arquitetônico. Os prédios mais novos tentam fugir das linhas retas, incorporam curvas comportadas aqui e ali, mas não enganam ninguém. O prédio abaixo é de altíssimo padrão, mas formato geral quadrado... com varandas levemente ressaltadas... essas esquadrias de alumínio com black-outs embutidos... construíram um com fachada igualzinha perto de onde eu morava, em Recife, em 2005. Só mudou a cor.

Figura 13: Prédio nas imediações da R. Aquidaban, Joinville/SC.

A propósito, esse negócio de plantar palmeiras também está batidíssimo!

É óbvio que, se se constrói edifícios caros com pouca atenção à estética pública, é porque tem gente que gosta. Conheço gente que a—do—ra essa arquitetura "neutra", talvez porque combine perfeitamente com o estereótipo de classe média alta. Eu, você, dois filhos e um cachorro.

Uma coisa é o Minha Casa, Minha Vida ser feio e seguir um projeto extremamente padronizado — o que já é errado, diga-se de passagem. Aqueles edifícios com 70 blocos do MCMV lembram contos de ficção científica, que fantasiavam — ou profetizavam — que todos os pobres do mundo seriam concentrados em cubículos longe das vistas da elite. Quem compra imóvel MCMV não pode escolher muito, não tem como votar com a carteira.

Mas apartamento sem graça que custa milhão, e vende, é algo mais intrigante. Significa que as pessoas interiorizaram o ideal de uma existência tecnocrática e indistinguível das demais, cuja métrica de virtude é a conformidade.

Alguns prédios caem numa categoria intermediária: têm um pouco de personalidade, mas só um pouco, para evitar desagradar um potencial comprador.

Figura 14: Prédio à R. Pernambuco, Joinville/SC

O prédio acima ousou bastante na escolha da cor, e tem uma mistura de elementos bonitos com outros de gosto duvidoso. Essas caixas de ar-condicionado não ajudam muito, mas isso pode ser desculpado; o edifício foi construído numa época em que split não era difundido. É um imóvel que não ofende minhas sensibilidades estéticas, nem me importaria de morar nele, embora não seja propriamente um ponto turístico.

Na mesma rua, outro edifício que classifico como "semi-bonito". Tecnocrático, linhas retas sem ser um paralelepípedo perfeito:

Figura 15: Prédio à R. Pernambuco, Joinville/SC.

Na imagem abaixo, dois prédios "semi-bonitos" na mesma foto, ambos já apareceram em outra figura deste artigo:

Figura 16: Prédios nas imediações da R. Aquidaban, Joinville/SC.

Na figura acima, o prédio da direita é mais novo. Devo admitir que é vistoso e bonito em termos absolutos, apenas me incomoda que ele não tenha uma "personalidade". A construtora imprime uma "cara" a seus prédios, inclusive com aquele círculo oco no topo, que eu acho interessante ou supérfluo dependendo do meu humor quando passo por ali.

Ainda na figura acima, o prédio da esquerda é mais velho, é obviamente tecnocrático mas tem uma aura de respeitabilidade. Sensação semelhante me passa o pequeno edifício da figura abaixo:

Figura 17: Edifício nas imediações da R. Aquidaban, Joinville/SC.

O prediozinho acima é resolutamente "anos 1970", tecnocrático, quadrado e "funcional". A decisão com que ele embute essas características é que o tira da irrelevância, e torna-o atraente (para mim, pelo menos). É um prédio que cheira a dinheiro velho, e remete a uma época de prosperidade e progresso. Por algum motivo, também me lembra as construções à beira-mar de 40 anos atrás, com amplas varandas e áreas envidraçadas. Eu não compraria um apartamento ali; mas se ficasse milionário, compraria o prédio todo só para mim.

Notas

(*) Analogamente, muitas obras viárias que visam "desafogar" o trânsito podem ter efeito oposto. Acabar com ruas de mão dupla, dificultar conversões à esquerda, criar corredores viários com pista dupla, tripla, quádrupla, etc. podem até aumentar a velocidade instantânea, mas os motoristas precisam dirigir 10km para chegar ao mesmo local que antes atingiam em 1km. O resultado líquido é uma piora do trânsito porque os carros ficam 10 vezes mais tempo na rua, em troca de um ganho de 2 ou 3 vezes na velocidade escalar, se tanto.

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