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O pulso da atividade

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2017.04.28

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Estão querendo fazer "greve geral" amanhã. Nunca vi uma greve geral colar no Brasil, é mais coisa de argentino e francês. Talvez essa "cole" porque muita gente já ia mesmo esticar o feriadão desde sexta, já que segunda é 1º de Maio. Aí fica fácil declarar vitória do movimento no dia 2.

Mas clientes e colegas de trabalho estão preocupados, porque talvez haja piquetes, ou os transportes realmente sejam comprometidos. Fora o feriado de segunda, que não nos exime de entregar certos artefatos que são devidos toda terça-feira logo cedo. O resultado? Todo mundo correndo para terminar as atividades da semana hoje. O que podia ser um resto de semana tranquilo, com um ramp-down antecedendo o feriadão, virou uma correria.

Outro sintoma de que mais gente está adiantando seus assuntos hoje para folgar amanhã, é o gráfico do AdSense/AdMob. Como muitos já devem saber, ganho uns caraminguás vendendo apps para celular, cujas versões mais populares são gratuitas e financiadas pelas famigeradas propagandas (AdMob); e o meu site também tem um certo movimento e daí vem a rendinha com AdSense.

O console do AdSense me mostra alguns gráficos de performance. A figura abaixo mostra um exemplo:

Figura 1: Exemplo de gráfico de performance do AdSense

Os valores absolutos não interessam para os fins desse artigo. O "pulso" do movimento do site e dos apps é o que eu gostaria que você observasse. Fica mais evidenciado nas métricas "Page views" e "Impressions" que traçam praticamente o mesmo gráfico. A imagem acima foi capturada numa quinta-feira, logo os gráficos terminam na quarta-feira, dia 26/04.

Podemos notar, por exemplo, que esta semana apresenta um grande incremento de atividade em relação às semanas anteriores. Como sexta passada (21/abr) foi feriado no Brasil, imagino que nesta semana estamos trabalhando tanto para compensar o feriado passado quanto o feriado futuro. Na semana de Carnaval tinha acontecido algo parecido, porém a posteriori, depois da quarta-feira de cinzas.

As semanas passada e retrasada mostram picos em formato de "trapézio irregular", porque 21/abr e 14/abr foram feriados. O grosso dos usuários do app gratuito são brasileiros, mas há muitos no exterior também, então a queda de movimento é mais aguda na Páscoa pois trata-se de um feriado mundial, e se não me falha a memória alguns países europeus param já na quinta-feira — tanto que o sábado de Páscoa aparece como um pequeno pico entre sexta e domingo.

A semana anterior aos feriadões (03-07/abr) é um trapézio mais regular, mas o ritmo geral é essencialmente o mesmo: um pico de atividade na segunda-feira, um platô de atividade até quinta-feira, e queda livre da sexta-feira em diante. Se alguém tiver curiosidade quanto a semanas anteriores, basta vislumbrar a versão azul-claro dos gráficos, já que a ideia da ferramenta é cotejar os últimos 28 dias com os 28 dias anteriores.

Mais uma figura, parecida com um "mapa de calor" que mostra o movimento do meu site não só por dia da semana, mas também em fatias de 2 horas:

Figura 2: Exemplo de gráfico de performance do Google Analytics

Prima facie os feriadões me prejudicam financeiramente. Até mesmo o fato do mês ter 30 ou 31 dias já causa uma diferença sensível no pagamento mensal do AdSense.

Porém, os meses têm o número de dias que têm. O faturamento menor num mês de 30 dias é de certa forma uma ilusão, isso acontece simplesmente porque o AdSense me paga por mês civil. Se pagasse a cada 30 dias úteis, ou 30 dias corridos, o valor pago seria mais uniforme, porém no fim daria tudo na mesma.

Da mesma forma, os picos atípicos (*) de atividade perto dos feriadões sugerem que o volume total de atividade humana no longo prazo, e.g. a atividade bimestral, ou anual, é mais ou menos invariável. Assim, não faria sentido queixar-me dos feriadões, já que a) são compensados por mais atividade em outras épocas, b) a compensação demora menos do que normalmente se supõe; e c) às vezes a compensação ocorre até antecipadamente.

Esta é uma hipótese que defendo faz muito tempo: que feriados, e por supuesto jornadas de trabalho com menos horas por dia, não afetam a produtividade global.

O Brasil tem muitos feriados comparativamente ao resto do mundo, porém trabalhamos mais horas nos dias úteis. Nossa produtividade é baixa mas isso se deve a outros fatores que não o número de feriados — até mesmo pelo fato do empresário insistir em jornadas de quase 9h por dia, quando se sabe que o humano típico não é produtivo muito além de 6 ou 7. E dessas 7h "mágicas", muitos desperdiçam 1, 2, quiçá 3 no deslocamento para o trabalho.

É claro, meu ponto de vista é parcial e privilegiado. Como um "trabalhador intelectual", que trabalha em casa, é do meu interesse afirmar tais coisas. Mas inúmeras outras pessoas mais isentas concordam com essa tese.

O próprio expediente de duração fixa é algo meio obsoleto. Pelo menos na minha área, temos aqueles dias inspirados onde trabalhamos 15h direto, que compensam os dias de "bode". Os finlandeses com que tive contato davam um expediente semanal em forma de arco: começavam de leve na segunda-feira, na quarta-feira trabalhavam até 10 da noite, mas na sexta-feira esticavam o turno matutino em 1h para não mais voltar depois do almoço.

Eu até aceito que possam existir atividades econômicas onde o lucro é perfeitamente proporcional ao tempo em que o empregado está a postos, e que a fadiga ou o tédio não sejam fatores de redução. Mas tenho dificuldade em imaginar quais seriam. Já trabalhei numa malharia, onde havia muita atividade manual, porém ali qualquer distração resultava em perda de qualidade ou mesmo acidente — tanto que o setor industrial tinha turnos de menos de 8h (embora desse expediente no sábado). Outras atividades industriais como vigiar uma máquina que trabalha 24x7 — bem, isso já é mais bem feito, ou será mais bem feito, por um computador. Também não posso deixar de mencionar atividades que envolvem interação humana. Por exemplo, vou no banco, é preciso que haja alguém lá num horário predeterminado para me atender. Ou no correio, ou no comércio.

Também existe o lado do consumo. Essa mentalidade de que "feriadão dá prejuízo" só tem chance de fazer sentido na medida em que a economia trabalha em modo "100% exportação", no estilo japonês, estilo aliás que já abriu o bico faz mais de 20 anos. Não é o caso do Brasil, não é o caso da maioria dos países.

Para a economia girar, precisa haver produção e consumo em patamares parecidos. Se o objetivo do governo e/ou da sociedade fosse realmente dinamizar ao máximo a economia, trabalhar-se-ia apenas até quinta de manhã, para que nos 3,5 dias restantes nos dedicássemos ao consumo. (Pessoalmente, não me incomodaria de trabalhar 10 ou 12 horas por dia, se fossem apenas 3 ou 4 dias por semana. Meu sonho de autonomia é esse, inclusive porque prefiro trabalhar à noite.)

Naturalmente, uma mudança cultural desse tipo vai demorar muito tempo e encontrar muitas resistência de um empresariado ignorante. Assim como muita gente resiste hoje à reforma trabalhista (**).

Também acho que esse tipo de coisa tem de ser trabalhada no mais alto nível, para que aproveite a todos. É ok um Paulo Paim, notoriamente consistente em suas teses (com a maioria das quais não concordo) defender jornada de 40h ou 36h semanais. Não é ok sindicatos arrancarem mediante greves esse benefício apenas para seus membros, via de regra já privilegiados (**). Talvez o problema seja que apenas um Paulo Paim defenda tal ideia, e "o problema da linguiça é que o porco vem junto" ou assim as pessoas pressupõem.

(*) não pude resistir a esta cacofonia :)

(**) Você achou que eu ia dar pancada no cravo e não na ferradura? :)

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