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Campos do Quiriri

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2016.01.16

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Fui dar minhas voltas e quase por acaso cheguei à região dos Campos do Quiriri, que sempre tive muita curiosidade de conhecer, mas que por um motivo ou por outro ainda não tinha visitado, apesar de já ter chegado perto duas ou três vezes.

Em Santa Catarina, o Morro da Igreja em Urubici leva toda a fama por ter grande altitude (1800m) e fazer muito frio. A estrada asfaltada que conduz ao pico também ajuda muito, é claro. Mas a região entre Joinville e Curitiba também possui altitudes formidáveis: 1325m na Serra Queimada, mais próxima a Joinville; 1538m na parte catarinense dos Campos do Quiriri, e até 1680m na parte paranaense.

O acesso a estes lugares é relativamente difícil, pelo menos para quem não se dispõe a enfrentar uma caminhada forte. Na BR-376, perto da PRF depois da subida da serra, pode-se subir o Morro dos Perdidos de automóvel. Com 1400m, este morro ainda faz parte da cadeia montanhosa do Quiriri. O último trecho exige 4x4 mas pode ser percorrido à pé por qualquer pessoa saudável, e a paisagem no ponto onde chega o carro já é incrível.

Os Campos do Quiriri são acessíveis por estrada mas ao longo dos anos já foi sujeito a diversos tipos de restrição. Antigamente era preciso dar uma garrafa de cachaça a posseiros, depois era preciso pedir autorização na Ciser (o dono desta empresa comprou parte dos campos para proteger nascentes). Até achar o ponto de entrada era uma aventura à parte, embora a estrada serpenteando morro acima seja visível de longe com tempo bom.

Hoje em dia, o caminho para o local é fartamente sinalizado desde Campo Alegre. Quem vem de Joinville pode tomar a estrada Laranjeiras, ou então ir até Campo Alegre e dirigir-se a Bateias de Baixo, Bateias de Cima ou São Miguel, e seguir as placas a partir dali. Também é possível chegar facilmente a partir do Paraná, vindo de Tijucas do Sul pela localidade de Ambrósios, ou tomar a última estrada à direita a partir da BR-376, antes de descer a serra. Este caminho é bonito pois margeia o morro mais alto dos campos (1680m).

Figura 1: Placa de boas-vindas aos Campos do Quiriri. Todo o caminho é bem sinalizado.

Uma das "lendas" do caminho para subir o Quiriri é a história das porteiras. A maioria das pessoas teria medo em transpassar uma porteira fechada, mas ali isto é tolerado porque há diversas propriedades que são enclaves, inclusive uma mina de caulim. Contei três porteiras, duas das quais estavam fechadas, mas sem placa de entrada proibida. O protocolo é deixar as porteiras no estado em que se encontravam. Nesta região criam-se vacas, cavalos e até cabras, todos à solta.

Figura 2: Cavalos à solta na rua, cena comum na região toda

Outra "lenda" é a necessidade de veículo 4x4 para subir morro acima. A estrada é cavada no barro puro e tem forte gradiente. Mas como ela tem de ser mantida suficientemente boa para os caminhões da mina da caulim circularem, acredito que qualquer automóvel razoável consiga subir com tempo bom. Descer exige cuidado e freio-motor suficiente, ou então ficar bem de olho na temperatura dos freios. O maior perigo seria pegar chuva estando lá em cima, porque o caminho de descida vira um sabão.

Não foi a pior estrada que já enfrentei nas minhas andanças — já entrei em enrascadas maiores para visitar estações ferroviárias abandonadas, e eu nunca faço trilhas, sempre uso estradas regulares que aparecem no mapa. A via é razoavelmente larga, veículos podem cruzar-se sem nenhum problema.

Figura 3: Aviso a respeito das condições da estrada de acesso aos Campos do Quiriri

O local é praticamente um castelo de cartas geológico: os morros são feitos de barro, com uma e outra pedra solta misturada. De 850 a 1100m de altitude, a vegetação ainda é mata fechada, a mesma que se observa em toda a região. Acima disso, as árvores dão lugar a arbustos altos, e acima de 1200m sobra apenas um mato rasteiro. Apenas os pinus de reflorestamento conseguem crescer acima desta altitude, quando uma semente sobe por acidente.

E isto é mesmo um acidente quando acontece, porque o pinus é considerado uma espécie exótica e invasora. Se os pezinhos de pinus não fossem extirpados conforme medram aqui e ali nos campos de altitude, a seu tempo tomariam conta da paisagem. Provavelmente comprometeriam as nascentes, pois toda a água subterrânea seria então consumida e evaporada pela floresta (embora reflorestamentos de eucalipto sejam mais notórios como "seca-brejo"). Em seguida sobreviria a perturbação causada pela exploração comercial, pois "já que abreu, leu"...

Do ponto de vista ecológico, a estrada nunca deveria ter sido construída, pois é um foco de erosão que a parca vegetação destes campos de altitude não consegue segurar.

Figura 4: Estrada cavada no barro, a vegetação rasteira não opõe muita resistência à erosão

A parte íngreme da subida incrementa a altitude de 950m para 1250m, percorrendo apenas 1800m. Isso corresponde a uma inclinação média de 17%. Pela foto abaixo dá pra ver que a inclinação máxima é bem maior em alguns pontos.

Figura 5: Início da subida íngreme para os Campos do Quiriri: subir 300m em menos de 2km

Realmente não saberia dizer se um carro 1.0 ou com tração dianteira conseguiria subir esta ladeira. Em tese todo carro tem primeira marcha dimensionada para uma rampa de 35%. Desaconselho subir com câmbio automático, salvo se seu veículo esteja equipado com reduzida, porque a) pode torrar o conversor de torque na subida, e/ou b) o freio-motor não será suficiente na descida. Subi na segunda reduzida (que equivale à primeira marcha de um câmbio manual comum) e desci na primeira reduzida para ter o máximo de freio-motor.

Um argumento a favor de usar veículo 4x4 nessa estrada é a conservação da própria estrada. Com tração integral, as rodas não patinam, o que evita a erosão, a que este lugar é muito sensível.

A paisagem incrível e a temperatura de 21 graus em pleno verão dão a sensação de um mundo à parte.

Figura 6: Sobre um morrote, 1410m de altura, observando o trecho final da estrada para os Campos do Quiriri. Ao fundo, o morro da antena e a estrada de acesso ao ponto mais alto, infelizmente fechada.
Figura 7: Olhando para baixo, provavelmente Tijucas do Sul/PR

Além da grande altitude, esta região distingue-se por ser o divisor de águas entre leste e oeste, isso a poucos quilômetros do oceano. A água que corre para leste forma rios relativamente pequenos, mas localmente importantes para as cidades no nível do mar. A água que corre para oeste também acaba no oceano, mas só depois de passar pelos rios Negro (que nasce aqui), Iguaçu, Paraná, e finalmente deságua lááá no Rio da Prata.

Figura 8: A cadeia de montanhas altas se estende, o morro coberto por nuvens chega a 1680m
Figura 9: Olhando para baixo, provavelmente Campo Alegre/SC
Figura 10: Campos do Quiriri
Figura 11: Campos do Quiriri, estrada de acesso e os estados de SC e PR lá embaixo
Figura 12: No altiplano dos Campos do Quiriri. A antena provavelmente é utilizada pelos moradores locais. O vale lá embaixo é o do Rio Quiriri, que fornece água a Joinville. As montanhas cobertas por nuvens bem ao fundo provavelmente compõem a Serra Queimada, que também atinge grande altitude.

Aparentemente o local já foi sede de uma fazenda de verdade, hoje abandonada. Ela inclusive consta no mapa. As demais estradas que conduzem desse ponto para outros picos não constam na carta, então devem ser mais recentes.

Figura 13: Fazenda Quiriri, desativada
Figura 14: Mapa do IBGE mostrando a localização da Fazenda Quiriri

O local não é desabitado, todavia. Há pessoas morando lá e umas poucas cabeças de gado pastam por toda parte nos campos.

Figura 15: Algumas taperas e cabeças de gado nos Campos do Quiriri

No mesmo nível da fazenda, há uma mina de caulim, que é outra atividade pouco recomendável do ponto de vista ecológico. Porém a mina é menor do que eu imaginava, e parece estar bem contida numa depressão do terreno.

Infelizmente a subida final para o famoso Morro da Antena, de onde é possível enxergar as cidades de Joinville e Garuva, bem como o oceano, estava fechada. Além da porteira com cadeado, havia uma placa de entrada proibida. Olhando as fotos em casa, também me pareceu que a estrada que vence 200m de desnível está em más condições (o pessoal de radioamadorismo tem usado quadriciclo para vencê-la), e não seria neste dia que eu tentaria uma subida tão íngreme à pé.

Figura 16: Subida final para o Morro da Antena, acima de 1500m e visível a partir de Garuva.

Antes da fazenda há um morrote, ao lado da estrada, que proporciona a melhor visão da região, salvo talvez o morro da antena. Foi onde fiz a maior parte das fotos. Notei que o pessoal sobe, ou tenta subir, de carro neste lugar, o que é coisa que não se deve fazer pois a vegetação rasteira desses campos de altitude sofre muito, conforme se pode ver na foto abaixo. O que custa subir esses metros à pé?

Figura 17: Trilha de veículos que subiram, ou tentaram subir, um morrote à margem da estrada. A vegetação rasteira se ressente destas agressões.

Na volta, ainda parei no mirante do início da Estrada Rio do Júlio, de onde se pode ver uma grande cascata do Rio Cubatão. Este rio também nasce na região dos campos de altitude, entre a Serra Queimada e os Campos do Quiriri. Curiosamente, ele nasce correndo para oeste, mas faz uma grande curva em U, e finalmente desce para Joinville.

Figura 18: Cascata do Rio Cubatão, vista do mirante na Estrada Rio do Júlio
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