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Software livre versus RC

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2017.07.27

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Como já disse em outras ocasiões, praticamente todo nerd tem "queda" por um conjunto muito previsível de hobbies, entre eles fotografia e modelismo radiocontrolado (RC). No momento, estou mordido novamente pelo bichinho do RC. Quanto à fotografia, reduzi meu equipamento a apenas duas lentes prime, em parte para financiar a recaída pelo RC, em parte esperando pela Nikon lançar uma câmera mirrorless.

Fazia quase 20 anos que não brincava com RC (ferreomodelismo está fora desta conta). Com a montagem do novo escritório, os trenzinhos saíram do ático para o mostruário, e foi o suficiente para soprar as brasas.

Foi interessante constatar as mudanças tecnológicas, bem como as não-mudanças.

Em 1998, a eletrônica RC era toda analógica. O coração do RC era o sinal PWM: uma onda quadrada de 50Hz/período de 20ms e ciclo ativo entre 1ms e 2ms, proporcionalmente à posição do controle. O sinal pode ser transmitido como se fosse áudio. Ele era gerado no controle, transmitido usando modulação AM ou FM, recebido no modelo, e usado diretamente pelo servo-motor.

Figura 1: Sinal analógico de controle de servo. Fonte: Wikipedia

O protocolo PWM foi feito sob medida para simplificar o circuito (analógico, claro) do servo. Por exemplo, a taxa de 50Hz assegurava que o motor do servo fosse alimentado de forma intermitente. O servo podia assim exercer um torque contínuo sem queimar.

O formato não era perfeito; cada dimensão de controle precisava de um canal próprio, o que encarecia muito os rádios para aviões e helicópteros. (Devido a isto, ainda chamamos de "6 canais" um rádio digital com seis controles.) A transmissão analógica era sujeita a ruídos, embora na prática funcionassem muito bem.

Outro defeitinho é a perda de precisão. Como o servo analógico usa diretamente o PWM para mover o motor, uma mudança pequena no controle gera um torque pequeno. Isto é até necessário, do contrário o servo poderia ficar oscilando. Hoje em dia, os servos de qualidade são digitais. Nestes, o controle do motor é desvinculado do PWM, e o torque pode ser máximo para qualquer comando.

Servos analógico e digital em funcionamento, controlados por um testador de apetrechos de modelismo

Este protocolo ancestral ainda é usado entre receptores e servos, principalmente em carrinhos e barcos, ou entre controladores de voo e ESCs (controladores de motor elétrico). O resto da cadeia é todo digital, e o receptor sintetiza o PWM para consumo local. Coincidência ou não, é o aspecto com menos problemas de compatibilidade. Inúmeros dispositivos, como ESCs, servos, luzes, trens de pouso, guinchos, giroscópios, etc. etc. "entendem" o mesmo protocolo.

Uma evolução intermediária foi o protocolo PPM. Em vez de usar apenas 10% do canal (2ms a cada 20ms) transmitem-se diversos "canais" em sequência, com uma pausa longa marcando o fim do pacote. O PPM não teve muito sucesso na era analógica, mas ganhou uma sobrevida em drones e helicópteros pois permite que receptor e controlador de voo se conectem por apenas um fio. Novamente, o receptor é digital e sintetiza o PPM apenas para a "rede local" do modelo.

Desculpe a chateação por descrever tão longamente esses protocolos analógicos. E nem sequer falei de software livre ainda (alguém leu o artigo pela metade por ter vazado no site e reclamou exatamente disso).

Em 2017, deveríamos estar usando um protocolo digital, aberto e universal, conectando os componentes numa mini-rede local dentro do modelo. O protocolo com essas características até existe (Futaba SBUS) mas é proprietário e servos SBUS custam uma fortuna. Sua adoção fora do aeromodelismo é zero.

Outros aspectos em que o hobby "involuiu", na minha opinião:

:( Os rádios migraram da tecnologia analógica 27MHz/75Mhz para digital 2.4GHz, e diversos rádios podem funcionar na mesma área sem interferência. Até aqui, ótimo. Porém cada marca e às vezes cada modelo de rádio é incompatível com quaisquer outros rádios! Isso apesar de quase todos os rádios usarem os mesmos 2 ou 3 chips como base.

:( Os rádios são digitais, é óbvio que possuem microcontroladores tanto no transmissor quanto no receptor, alguns podem receber update de firmware — mas nem se fala de código-fonte aberto ou software livre para eles, com raras e honrosas exceções.

:( Muitos carrinhos de RC usam os famigerados receptores "tudo em um" que açambarcam o ESC e até o controlador do servo. Fazer qualquer upgrade (ou substituir um componente queimado) implica em jogar fora toda a eletrônica original, que às vezes até é boa, mas não é modular.

:( Muitas vezes os servos têm 5 fios e são "burros"; a parte inteligente do servo fica naquele receptor "tudo em um". Os servos têm tamanhos gozados, transformando num calvário a busca por servos PWM de tamanho compatível. E os servos "burros" retirados de um carrinho não servem em nenhum outro projeto, tanto pela incompatibilidade elétrica quanto pelo tamanho sui generis.

:( ESCs, giroscópios, servos digitais, etc. são todos "inteligentes" mas, novamente, não há disponibilidade de código-fonte nem mesmo upgrade de firmware.

É claro, tudo isso é irrelevante para quem quer apenas comprar um carrinho e sair andando. Mas a essência do modelismo dito "profissional" é fuçar, fazer-você-mesmo e adquirir conhecimento. Apenas andar com o carrinho e trocar eventuais peças quebradas perde a graça logo. E boa parte dos potenciais de DIY e de aprendizado fica inacessível com software fechado.

Não me parece que façam isso para manter o modelista refém de um fabricante, já que os preços de componentes eletrônicos de RC nunca foram tão baixos. Trocar toda a eletrônica de um carrinho nem sai caro. Apenas ofende o senso comum fazer isso por incompatibilidade gratuita. Os fabricantes ganham dinheiro é vendendo upgrades mecânicos (peças de metal em vez de plástico, peças mais leves, etc.). Principalmente os carrinhos chineses baratos são verdadeiras "sopas de pedra": uma vez instalados todos os upgrades desejáveis, pouco sobra do original. Mas ninguém contesta que um fabricante possa faturar nos upgrades, ou com um carrinho que precise de upgrades, é a remuneração por um projeto bom, já que um modelo mal projetado nem sequer teria um mercado secundário de upgrades.

Pode ser que esses softwares embarcados sejam piratas, e esta seja uma motivação para o segredo. Se o fabricante não tem o código-fonte, e talvez nem saiba como o firmware funciona (porque já clonou o hardware, como é comum hoje em dia) obviamente não pode disponibilizar fonte, nem dar suporte, nem permitir upgrades.

De minha parte, o que pretendo fazer (enquanto a "febre de RC" durar) é começar a brincar com Arduino e/ou ESP32 embarcado. O objetivo de longo prazo de (re-)implementar um controle de tração e estabilidade. Isto já é oferecido por alguns módulos comerciais, mas o meu será aberto, é claro.

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