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Filmes-Schadenfreude: Love Me e Queen of Versailles

2015.07.31

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Algumas palavras de determinado idioma encerram um significado de forma tão lapidar e compacta que, ainda que possam ser traduzidas, acabam sendo usadas no original. Este artigo cita quase trinta expressões do gênero. Menção honrosa para a palavra japonesa "bakku-shan" — mas como o Brasil está sempre avançado na tecnologia da obcenidade, aqui não precisamos chamar uma mulher de "bakku-shan", pois a expressão coloquial "Raimunda" significa a mesma coisa e tem ainda menos letras!

(O latim colabora com inúmeras expressões e brocardos, como sui generis, jus sanguinis, ex nunc, animus jocandi, que também encerram muito significado de forma compacta; mas não são palavras singelas.)

O idioma alemão colaborou com duas palavras largamente usadas no mundo todo: Ersatz e Schadenfreude. Ersatz significa, literalmente, substituto; e geralmente utilizada no contexto de produto substituto inferior. Por exemplo, eu queria um iPhone mas comprei um Android (brincadeirinha... :) Schadenfreude significa "prazer com a desgraça alheia", que eu certamente não preciso explicar porque o leitor conhece muito bem.

(Dentro do canal #d00dz as novidades que estimulassem o Schadenfreude eram simplesmente chamadas de "news". Novidades positivas eram "anti-news".)

Recentemente assisti a dois filmes no Netflix que vão interessar a quem quiser sentir um pouco desse prazer proibido.

Love Me

Este filme é sobre as mail-order brides (outra expressão inglesa sem tradução fácil), ou seja, aquele esquema em que homens de países desenvolvidos arrumam esposas em lugares mais pobres, geralmente mediante o pagamento de um serviço de intermediação. A legítima "noiva pelo correio" envolve intermediação; casais internacionais que entram em contato diretamente, e procuram se conhecer de um jeito mais "normal" são normalmente poupados deste rótulo.

O prazer mórbido do filme é ver o tipo de homem abestalhado (no filme, era sempre um estadunidense) que se dispõe a pagar 10 mil Obamas ou mais para trocar mensagens curtas com ucranianas que ele nunca viu nem ouviu. Aí quando ele realmente vai para a Ucrânia, a coisa dá errado de todas as formas imagináveis.

Por exemplo, a guria que não lembrava o nome do "namorado", porque trocava mensagens com quarenta deles. Até a que aceitou casar, desde que fosse no Taiti. O casamento não foi válido nem foi consumado: a intenção da mulher era levar os filhos para umas férias num lugar legal.

O esquema de intermediação de noivas é praticamente um golpe; é marginalmente melhor que aqueles scams nigerianos. É quase certo que as "noivas" são cúmplices. Num caso, apareceu a "polícia" na casa da mulher, exigindo o pagamento de uma dívida, do contrário ela iria para a cadeia. Claro que isto aconteceu num horário conveniente, quando o otário também estava presente no local. Começa a discussão, a certa altura o cobrador pergunta ao "noivo", na cara dura: Você tem esse dinheiro? Não? Quanto você tem aí? Depois o "noivo" fala: é, eu tenho uma vaga suspeita que isso talvez pode ter sido ser um golpe...

Dos muitos "casais" que o filme acompanhou, dois efetivamente chegaram no "felizes para sempre": casamento, visto nos EUA para ela, filhos, família formada. Pode ser por obra e graça da edição do filme, mas meio que dá para enxergar desde o início quem vai se dar bem, e quem vai se dar mal.

No geral os homens com atitude mais "vencedora", que poderiam muito bem ter se arranjado em casa, foram os que conseguiram se arranjar na Ucrânia. Fizeram o óbvio: escolheram mulheres com idade, beleza física, idade e formação mais ou menos compatíveis.

Um dos que "fracassaram" na Ucrânia venceu de forma diferente: aprendendo com a experiência. Reatou com uma ex-namorada local — por sinal tão bonita quanto qualquer das ucranianas que apareceram no filme.

Queen of Versailles

Este filme é sobre a família Siegel, dona dos Westgate Resorts. Se bem entendi, os Resorts são hotéis em condomínio no esquema de timesharing, onde cada dono tem direito a usar o local por X dias/ano. No Brasil os hotéis "Candeias" são sinônimo desta modalidade.

O ponto focal do filme é Jackie, esposa do magnata David Siegel. Jackie é a dondoca e esposa-troféu quintessencial. Posição que contrasta com seu passado: Jackie é graduada em informática, tendo trabalhado inclusive na IBM. Casou, teve um filho, separou, enjoou da informática, perseguiu uma segunda e bem-sucedida carreira como modelo, em que finalmente conheceu David. (E eu me gabava de ter migrado da análise de sistemas ERP para a engenharia de software...)

O filme-documentário começou a ser rodado na época das vacas gordas, em que o casal Siegel estava construindo a maior casa estadunidense, inspirada no Castelo de Versalhes. Morariam num lar maior que a Casa Branca. Mas aí veio a crise do subprime, o dinheiro barato secou, e David Siegel foi pego no contrapé, subitamente sem crédito para finalizar diversas obras caras, inclusive a tal casa.

David tem particular orgulho de um certo edifício em Las Vegas, o Ph Towers Westgate, e faz de tudo para terminar esta obra, em vez de perdê-la para o banco por uma fração do custo já incorrido. No desespero para poupar dinheiro, os Siegels apertam o cinto de formas extremas até para pessoas de classe média: os filhos vão para a escola pública, e o patriarca policia os arredores da casa menor para a qual se mudaram a fim de reclamar de luzes acesas sem necessidade.

Num certo momento, Jackie queixa-se amargamente dos bancos, chegando a dizer que "eles não produzem nada, então deveriam dar crédito para quem produz coisas — para gente comum, como nós". (Gente comum?!) O marido oscila entre admitir que a empresa tinha se viciado em crédito barato, e reclamar do banco que equipara a um traficante de drogas que fornece as primeiras doses de graça.

O filme termina com o futuro dos Siegels em aberto. Eles acabaram recuperando-se financeiramente. A mítica casa ainda está em construção. Mas os amantes da desgraça alheia também recebem seu quinhão: a filha do primeiro casamento de Jackie morreu de overdose.