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Minha opinião sobre o Escola Sem Partido

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2018.11.19

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Até um relógio parado está certo em dois momentos do dia. O Olavão soltou uma crítica a priori ao Escola Sem Partido que considero a melhor até agora: a ideologia é indissociável do processo de ensino, o professor sempre vai embutir opiniões ao tentar passar conhecimento, então é inócuo e perigoso criminalizar ideologia na sala de aula.

Depois, passa 2 ou 3 minutos e o Olavo já começa a atrasar de novo, falando da conspiração comunista internacional, etc. Mas vamos ser tolerantes e focar na parte boa do ensinamento do Professor.

Lembrei logo dos meus ex-alunos, que gostavam de me provocar dizendo que produto X ou Y da Microsoft era melhor que o Linux :) Enfim, eu dava aula de Linux, então me considerava justificado na minha ideologia — viu como é difícil separar as coisas?

Como ex-professor, defendo a priori o direito de cátedra do professor. Além do mais, tive professores comunistas, gostava muito deles, e eles gostavam de mim, apesar de eu sempre fazer questão de discordar. Tampouco me deram nota baixa por isso. Achei positiva e importante essa exposição a diferentes pontos de vista. É pra isso que a gente vai à escola, não é?

A recompensa do artista é o aplauso e a recompensa do professor é a atenção do aluno. Existem professores que detestam interrupções ou contestações, geralmente são os que no fundo não sabem nada da matéria; a maioria gosta muito de ser inquirida e contestada, simplesmente porque para discordar é preciso que o interlocutor preste atenção e compreenda a tese inicial.

Pode muito bem ser que a educação decaiu muito desde o "meu tempo", e hoje os professores estão distribuindo zeros como doces de Cosme e Damião aos alunos que não decoram a Internacional Comunista. Talvez aconteça, mas creio ser um acontecimento extremamente raro. Salvo melhor juízo, o cerne da motivação do Escola Sem Partido é nulo.

Bem, este é o erro da direita. O erro da (autodenominada) esquerda é defender o sistema educacional atual como uma coisa perfeita e acabada, tanto no planejamento quanto na implementação.

Lembram da Isadora Faber, aquela menina de Florianópolis que criou a página "Diário de Classe" do Facebook? Ela e a família chegaram a sofrer agressões físicas. Por fazerem críticas no geral cabíveis à escola pública onde ela estudava. E o Nassif, que é/foi porta-voz extraoficial todo-mundo-sabe-de-quem, foi logo postando uma contradita.

Em resumo: não ouse sair da ladainha falta-de-verbas-professores-mal-pagos quando for criticar a implementação, senão fica sujeito à justiça do arbítrio, assim como os parricidas da Grécia Antiga, mesmo que conte apenas 13 anos. Afinal, se é público e gratuito, é divino, não há por que criticar!

Quanto ao planejamento, existe toda essa mística de ministrar 28349 matérias no ensino fundamental e no 2º grau, "para que os alunos desenvolvam pensamento crítico". Isso é bosta pura. É talvez o método mais eficaz de garantir que toda a população seja intelectualmente castrada. Por quê?

Em primeiro lugar, mesmo que você estude na melhor escola do mundo, simplesmente não cabe tanta coisa na cabeça da criançada. Nem é próprio da idade interessar-se por história, geografia, filosofia... Se eu fosse o ditador benevolente do mundo, as pessoas voltariam à escola depois de adultas para as aulas de ciências sociais, porque a maturidade e a possibilidade de cotejar a matéria com experiência real de vida potencializariam o aprendizado.

Em segundo lugar, a escola típica é ruim. Sabe como é, falta verbas, os professores são mal pagos... Então, insistir na utopia é garantia de fracasso. Melhor ensinar direito o básico: português e matemática. (E estou quase achando que uma educação bilíngue, em inglês, também deveria ser o padrão. Ficar na dependência de um idioma periférico como é o português para se informar, é garantia de mediocridade.) De quebra, essas matérias dão menos espaço para doutrinação ideológica de qualquer matiz.

"Ah, mas assim você está criando autômatos para o mercado de trabalho, não cidadãos com pensamento crítico." (Não é incrível como esses chavões soam bem?)

Bem, para ter pensamento crítico, é preciso saber ler, saber escrever, e saber lidar com números. Sem isso, não tem pensamento crítico, nem cidadania, nem porra nenhuma. E sim, ser qualificado para um emprego é importante. É mais fácil desenvolver pensamento crítico com a barriga cheia.

Em terceiro lugar, muito conteúdo das ciências sociais tem prazo de validade bem curto. Por exemplo, muito do que aprendi antes da queda do Muro de Berlim era simplesmente inválido, seja por mudanças de fronteiras, ou porque era mentira mesmo. O estudo da história era totalmente focado para luta de classes, porém textos recentes focam muito mais na evolução científico-tecnológica dos povos e em desastres ecológicos (que a humanidade já provocava, em escala regional, desde a Pré-História). Melhor investir o esforço educacional em conhecimentos mais perenes.

Existem algumas coisas que são mais fáceis de aprender enquanto criança. Música é uma delas. Como a música é extremamente interdisciplinar — tem ligações óbvias com história, matemática e física; e hoje em dia com a eletrônica — é uma boa candidata a matéria obrigatória na escola, pois cria "ganchos" para interesses na vida adulta.

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