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Globalização e simbiose

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2012.09.05

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Linus Torvalds, o criador do famoso e livre sistema operacional Linux, não é exatamente amado pela comunidade meia-nove. É respeitado e tolerado por sua competência técnica e capacidade de entrega — confirmadas mais uma vez quando Linus criou o Git. Mas é respeito, não é amor.

Esse desamor tem algumas razões extrínsecas. Torvalds é pragmático; não é um defensor xiita do software livre como Richard Stallman; não faz o gênero bolsa-de-couro-cru. Não se furtou em mudar-se da Finlândia para os EUA assim que surgiu a oportunidade de ganhar muito (e merecido) dinheiro. Ele "traiu o movimento punk", digamos assim.

Aliás, eu seu livro, Torvalds deixa bem claro que, apesar de entrever as vantagens, não concorda com o sistema semi-socialista finlandês, onde um trabalhador sofrível ganha 3000 euros e um luminar ganha 3500. (A derrocada da Nokia deve estar fazendo mais gente pensar da mesma forma.)

Na verdade, Torvalds também esclarece quão profundas são as raízes dessa opinião. O pai dele era comunista, e um pai bem ausente. "Um sonhador", segundo Torvalds-filho, enquanto a mãe tinha de equilibrar as contas e a agenda.

Perguntaram ao escritor Saramago porque ele era comunista: respondeu ele que, no fundo, isso não tinha explicação racional. Era algo "hormonal". E é provável que assim seja para todos nós: de acordo com nosso temperamento ou traumas de infância, adotamos uma ideologia e ficamos tentando racionalizar. Com Torvalds não foi diferente.

A crítica mais óbvia à posição de Torvalds é a seguinte: EUA é economicamente pujante e recompensa os "vencedores", mas é muito desigual. Torvalds teve acesso a uma educação de qualidade justamente porque vivia num país semi-socialista. Se vivesse nos EUA, com a família Torvalds na mesma situação financeira meia-boca, ele teria de contar com a sorte.

Na mesma linha, a maioria dos esquerdistas do Brasil vê a Europa como o modelo a ser seguido, e os EUA como o modelo a ser evitado.

Só tem um detalhe que todo mundo esquece: a Europa pode dar-se ao luxo de uma sociedade altamente igualitária, e ainda assim rica, porque vive uma relação de simbiose com os EUA. Sem isso, seria muito mais desigual ou muito mais pobre, a escolher.

Sim, claro, existem outros fatores que impelem a um maior igualitarismo na Europa: homogeneidade étnica, as guerras passadas, etc.

Mas o fato é que igualdade custa muito dinheiro, inclusive na forma de "lucros cessantes" — se um luminar ganha 500 euros a mais que o energúmeno da mesa ao lado, o primeiro vai "relaxar" um pouco com o tempo, e isto tem um impacto no PIB nacional e em última análise nivela por baixo a qualidade de vida de todos.

É para os EUA que a Alemanha vende seus Porsches e BMWs. É nos EUA que os excepcionais positivos europeus vão trabalhar, ganhar dinheiro e — por que não dizê-lo? — realizar completamente seu potencial.

A aceitação da contra-parte facilita muito as coisas, é claro. Ao europeu, basta saltar no avião e ir para os EUA, se der na telha; é como escolher um sabor de sorvete. Vá você, brasileiro, tentar a mesma coisa :)

Note também que eu disse que a relação Europa-EUA é simbiótica. Eu não estou dizendo que a Europa é "parasita" dos EUA. Existe aí uma simbiose, uma troca, um acordo tácito. A sociedade europeia, do jeito que ela é, forma pessoas e cria coisas não encontráveis nos EUA ou em qualquer outra parte do mundo.

Por exemplo, como bem disse Paul Graham, os europeus sabem fazer coisas bonitas, enquanto os estadunidenses, via de regra, não sabem. A começar pelos automóveis. Os EUA são a Meca do automóvel, mas o que sabe melhor? GM ou BMW? Ford ou Land Rover? Até os carros Dacia e Lada têm sua personalidade...

Para encerrar: O designer-chefe da Apple é britânico, e Steve Jobs tinha como referência o design industrial alemão.

Agora, como fica o Brasil nesta discussão? Neste exato momento, nossa simbiose com o mundo é exportar matéria-prima. Não é algo horrível por si só (os EUA vendem carvão para a Europa até hoje) mas poderia ser bem melhor.

Faz um certo sentido o Brasil almejar o modelo social europeu em vez do estadunidense. Como disse o Barão do Rio Branco, somos bem ou mal um produto da Europa. Nosso povo até tem um senso estético apurado. Por outro lado, não coloca isto em prática. Basta ver quão feias são quase todas as nossas cidades.

Neste exato momento nós temos o pior dos EUA e da Europa: uma sociedade desigual, e ao mesmo tempo carente de oportunidades. E que cultua a mediocridade. E olhe que já melhorou muito em todas estas frentes!

E podemos continuar melhorando de forma solidária. Porém, em algum momento, teremos de escolher entre mais disto ou mais daquilo. E esta escolha terá de ser combinada com o resto do mundo. Ou negociada. Ou imposta, com jeitinho :)

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