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Resenha de livro: O sinal e o ruído

2019.08.22

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

O LVR já deve ter até contratado um hitman pra vir aqui e cobrar a resenha dos últimos livros que enviou. Mas hoje vou diminuir um pouco a dívida, agora só falta um livro e um DVD. Também falta ler um livro que ganhei no Natal, é uma vergonha isso!!

Aliás, demorou mas acabei me deixando contaminar pelo grande ladrão de attention span que é o YouTube. Eu que sempre gostei de ler, agora tenho de fazer um esforço razoável para deixar de lado o Seu Tubo em favor de um livro. Não ajuda o fato do conteúdo em vídeo estar cada vez melhor e mais variado. Todos os grandes nomes e até as emissoras de TV estão lá dentro. Até eu estou alimentando a besta com uns videozinhos sobre teclados mecânicos, em vez de escrever artigos sobre eles.

Mas os livros ainda detém o monopólio do conhecimento profundo, tal qual proporcionado pelo texto "O sinal e o ruído" de Nate Silver.

Figura 1: Capa do livro "O sinal e o ruído"

Este livro é uma espécie de grand tour a respeito da arte-ciência da previsão, seja previsão do tempo, da economia do próximo semestre, do aquecimento global em 20 anos, do resultado da próxima eleição ou até do próximo jogo de futebol.

O autor é muito qualificado no assunto, tendo feito fortuna no pôquer on-line e com o site de análise de opinião pública FiveThirtyEight. Além de qualificado, Nate Silver é muito bem conectado; o livro cita entrevistas e conversas com figurões do naipe de Donald Rumsfeld.

Figura 2: Página do livro "O sinal e o ruído"

O texto fala bastante do uso, principalmente do mau uso, da estatística para fazer previsões. Não poderia faltar um longo elogio aos métodos bayesianos. A fase de jogador de pôquer do autor ilustra bem o desafio que é transformar uma boa previsão em lucro: no pôquer e no mercado financeiro, não basta acertar freqüentemente, também é preciso "errar barato" quando a previsão falha. Também é preciso haver um volume mínimo de otários endinheirados; um jogo que só recompense o 1% mais competente não atrai jogadores, e implode.

O autor divide as pessoas em duas categorias gerais: os "porcos-espinhos" e as "raposas". Os primeiros acreditam piamente em modelos que prevêem o futuro com exatidão, e quando a previsão falha, pensam logo em causas de ordem superior (que foi azar, que o mundo está errado, que há uma conspiração dedicada a invalidar o modelo). As raposas também fazem uso de modelos, mas admitem que a realidade é soberana e vão fazendo ajustes, tentando minimizar o erro.

Conforme já mencionei aqui, os nerds têm uma grande tendência a acreditar no "mundo do dever ser", descolado da realidade. Sim, nós nerds tendemos a ser porcos-espinhos. Nem sempre isso é um erro; pode dar certo quando o porco-espinho consegue mudar o mundo segundo o modelo — pense Steve Jobs, Elon Musk e tantos outros.

Para o leitor brasileiro, o livro tem o pequeno defeito de ser muito centrado nos EUA. Fala muito de basebol, um esporte não muito popular entre nós. Eu nem pôquer conheço. No "mundo do dever ser", a tradução falaria de estatísticas de futebol, dominó e truco.