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Livros sobre habilidades moles

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2016.10.05

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

O título é uma gozação com a tradução literal da expressão "soft skills", cujo significado é "habilidades não-técnicas". Habilidades como relacionamento interpessoal, desembaraço para falar em público, etc.

"Soft skills" não são o meu forte, mas a quase totalidade dos nerds tem enorme dificuldade em lidar com gente. Então, dentro do "meu" ecossistema, não estou particularmente mal nessa questão. Mas a gente sempre quer fazer melhor, não é?

Além disso, esta nossa inabilidade geral tem um custo para toda a nossa guilda: não somos pecuniariamente valorizados como deveríamos. Isso quando a "comunidade" não embarca em jornadas de autocrítica destrutiva ("ull, a indústria de informática é misógina e racista, nós somos lixo!") — enquanto médicos, advogados e financistas ficam com todo o dinheiro e com as mulheres bonitas, inclusive as nerds bonitas :)

Figura 1: Dilbert palestrando na escola sobre a profissão de engenharia. Fonte: http://dilbert.com/strip/1993-04-22

Então, seguindo sugestões do meu amigo Adenilson "Savago", adquiri uma trinca de livros sobre habilidades não-técnicas. Segue a resenha dos mesmos.

Fearless Salary Negotiation, de Josh Doody

"Sempre negocie seu salário."

É um livro curto e bastante focado num aspecto interpessoal específico: negociação salarial, seja na hora de entrar num emprego novo, seja na hora de pedir aumento no emprego atual.

Não é um livro particularmente divertido de se ler, mas é útil mesmo assim, e o próprio autor declara que o texto foi pensado para ser utilizado como "manual de instruções", a ser consultado na véspera de uma entrevista de emprego.

Para quem já não é neófito, boa parte das dicas soa óbvia, mas é preciso lembrar que o livro quer atender a um público amplo, desde o universitário que está escolhendo seu primeiro trabalho. E mesmo para um macaco velho como eu, há dicas importantes, coisas que a gente "sabe" mas não pratica, como por exemplo manter um registro das atividades realizadas e manter nosso gerente informado semanalmente — para estar documentado na hora de pedir aumento ou atualizar o currículo.

Soft skills - The software developer's life manual, de John Z. Sonmez

"Não entendo porque seria mais penoso ao cérebro emitir sinais elétricos para fazer algo útil, do que para digitar um comentário idiota no Facebook."

Ao contrário do anterior, este livro é de "amplo espectro": toca praticamente todos os aspectos da vida pessoal e profissional do nerd. Começa com atividades acessórias da vida profissional, como a construção de uma reputação, e termina falando de exercício físico e saúde espiritual, passando pelo grande "fantasma" de todo nerd: a procrastinação.

A primeira metade do livro eu achei melhor. Excepcional, até. Depois, cansa um pouco. Ainda que o tom do autor seja em geral de grande humildade, é um pouco pretensioso pretender orientar pessoas em absolutamente todos os aspectos da vida. É coisa que a gente acha que pode fazer com os outros aos 25. Aos 40, eu cuido só do meu nariz e mesmo assim busco conselho sempre que posso.

Também há uma enorme omissão: problemas psiquiátricos como ansiedade e depressão, que costumam afligir os nerds. Não que os nerds sejam "doidos"; é simplesmente porque usamos mais o cérebro e qualquer probleminha no cérebro é notado imediatamente. Quem é atleta também descobre as fraquezas do corpo bem mais rapidamente do que não-atletas. O Guga poderia passar a vida inteira sem saber que tem um problema no quadril, se não jogasse tênis profissionamente.

Mas não deixe de adquirir o livro por conta dos meus comentários negativos. Os capítulos "bons" do livro, se fossem movidos para um livro mais compacto, este valeria o mesmo preço.

O autor faz questão de falar sobre dinheiro e investimentos, o que é muito bom. Surpreendentemente, dedica um capítulo a explicar como funcionam as opções. O autor justifica isso afirmando que opções costumam atrair os nerds porque são pura matemática. Soltei uma risada involuntária quando li isto, já que foi precisamente este o motivo que me atraiu para o assunto, a ponto de escrever livros sobre ele.

O livro também fala sobre entrevistas de emprego e negociação de salário, e no geral confirma o que o outro livro diz.

Cracking the code interview, de Gayle Laakmann McDowell

"Os entrevistadores justificam a cobrança de algoritmos e estruturas de dados, alegando que quem conhece estes assuntos costuma ser também um bom desenvolvedor."

Este não é exatamente um livro sobre "soft skills" em geral, mas sim sobre entrevistas de emprego. Hoje em dia, o informata que pretende jogar na primeira divisão precisa cultivar duas habilidades distintas. Uma é conhecer o oficio em si. A outra é se dar bem nas entrevistas de emprego, para poder enfim exercer o ofício. Conforme a frase pinçada do livro, a entrevista costuma cobrar conhecimentos teóricos de ciência da computação.

No início do livro, o processo de entrevista das grandes empresas da área (Google, Apple, Microsoft, etc.) é explicado sumariamente. Em seguida, há um capítulo por tópico de ciência da computação. São capítulos curtos — o livro é grosso porém 80% as páginas são dedicadas a esmiuçar as respostas dos exercícios.

O tom do livro é bastante leve e encorajador. Aliás, desde o início da leitura gostei do estilo "macio" do escritor, algo pouco usual em textos técnicos. Até olhar a contra-capa e constatar que ela é uma escritora! Este é um motivo legítimo para desejar que a porcentagem de informatas mulheres fosse mais próxima de 50% — mais instâncias desse estilo "macio", em livros, em colegas de trabalho, nas chefias.

Apesar da "maciez", não é uma leitura leve, afinal uma tonelada de algodão pesa o mesmo que uma tonelada de chumbo.

A própria escritora afirma com razão que a preparação para uma entrevista de emprego começa um ano antes, e é nessa tocada que o livro deve ser digerido. Se você ler o livro de capa a capa, não vai usufruir dele. Não vai ganhar preparo se ler as respostas dos exercícios antes de tentar resolvê-los.

Adotei o hábito de resolver um exercício por dia. Não que eu tenha uma entrevista em vista, mas como não sou formado na área, tenho umas lacunas no conhecimento teórico. Me considero inteligente e sou experiente na área, mas vou te dizer, alguns exercícios chegam a me deixar fisicamente cansado! Os exercícios são questões reais de entrevistas, o objetivo é mesmo colocar o candidato no dinamômetro.

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