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Telegrafia social

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2018.09.20

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Tenho evitado ativamente escrever sobre temas não-técnicos, já que o público não está interessado em opiniões que não sejam extremistas. Este artigo vai furar o bloqueio pois estou gestando-o há muito, e ele tem um pezinho na tecnologia.

Outro motivo da espera é que os exemplos que eu vinha coletando eram na maioria relacionados a pensão alimentícia. Como minha fama de misógino já cruza o oceano, e isso hoje em dia pode custar sua carreira mesmo que não seja verdade, a gente acaba praticando uma auto-censura. (*)

Mas apareceu outro exemplo, interessante demais para deixar passar.

No prédio em que moro, moradores das coberturas moveram uma ação visando baixar a taxa de condomínio, que é muito mais alta para eles por conta da metragem dos respectivos apartamentos. Na mesma ação, pleiteiam a devolução em dobro do que alegam ter estado pagando a mais, retroativamente desde a inauguração do prédio.

Pessoalmente, sou simpático à primeira parte da tese desses moradores. Na minha opinião o condomínio deveria ser uma função sub-linear, algo como metragem elevada à potência 0.7. Mas já é uma tese difícil de vender. Quanto à segunda parte, acho quase impossível que seja atendida, por razões óbvias.

Juridicamente, é fato que qualquer um pode pleitear qualquer coisa. Um advogado diria que, se alguém pleiteia algo impossível ou risível, isto não significa nada, é como se não tivesse existido. Também é verdade que tais pleitos fúteis são incluídos para estabelecer uma base de negociação mais vantajosa, analogamente a uma negociação de preço num mercado persa.

Mas eu discordo desse modus operandi. Não é porque se PODE pleitear qualquer coisa, que se DEVERIA pleitear qualquer coisa. Por mais que tais pleitos sejam rejeitados de plano, eles constituem um canal sub-reptício de comunicação, um sinal de fumaça, uma "telegrafia social". Uma vez recebida a mensagem, o gênio está fora da garrafa.

Por exemplo, se eu pleiteio receber taxa condominial em dobro e retroativamente, estou estabelecendo uma relação adversarial com os vizinhos de porta, pleiteando cobrar 1.500 reais de cada um. Tal atitude não tem volta e não tem conserto.

Outra coisa que muita gente parece não entender a respeito da psique humana, é a percepção subjetiva de probabilidade. "Toda chance é de 50%; ou acontece, ou não acontece." Se você impõe a uma pessoa um risco de 0,1% de perder alguma coisa, vai ficar tão marcado como se a chance fosse cara-ou-coroa. (Corolário: se for comprar briga, que seja para ganhar, para que o desgaste valha a pena.)

Também há a questão da probabilidade bayesiana, ou seja, da probabilidade geral corrigida por informação adicional local. Por exemplo, algumas feministas pleiteiam relaxar ou mesmo inverter o ônus da prova em caso de alegação de estupro, citando que "apenas" 2% ou 4% dessas alegações são falsas. Mas um homem que não estupra sabe que não estupra. Para ele, a chance de uma acusação ser falsa é 100%. Obviamente, para ele é melhor que o ônus da prova continue cabendo a quem alega. Já para um estuprador, o problema não muda muito de tamanho.

Outro exemplo, baseado numa historinha que ouvi esses dias. Talvez nem seja verdadeira, mas vá lá. Um casal sem filhos se separou, a mulher ganhava 17.000 e o homem, 3.000. A mulher pleiteou pensão alimentícia. Obviamente, o juiz negou. Foi algo sem conseqüência para os dois, mas socialmente ela "envenenou o poço": ajudou a alimentar o folclore que o sexo masculino é espoliado no casamento e no divórcio. E não adianta dizer pros homens que "a chance disso é pequena" ou ainda que "basta você contratar um bom advogado". (**) A chance subjetiva é digital: ou é 50%, ou é 0%, ou é 100%.

Eu mesmo tenho aconselhado meu filho a nunca casar, salvo com uma mulher rica. É uma reação irracional da minha parte? É, mas quando se trata de proteger sua prole, o cérebro reptiliano fala muito mais alto que o neocórtex.

Algo semelhante acontece com a Justiça do Trabalho. Existe esse folclore que a maioria das ações trabalhistas são frívolas ou retaliatórias. Seja verdade ou não, o fato é que o número de ações trabalhistas é gigantesco. Isto quer dizer que: a) de fato a Justiça do Trabalho se deixa usar como instrumento de ações frívolas ou retaliatórias; e/ou b) as leis trabalhistas falham retumbantemente em cumprir seu papel de regular as relações humanas e reduzir as possibilidades de litígio.

Eu é que não vou pagar pra ver, não vou contratar empregado nenhum no Brasil para descobrir se A, B ou A+B é verdadeiro. Se precisar de um desenvolvedor, contrato um russo ou um vietnamita.

Também se afirma que a justiça trabalhista é inútil porque custa mais do que o total monetário das sentenças. Isto é falacioso, pois o objetivo da existência da Justiça do Trabalho é justamente dissuadir ilegalidades. O ideal seria que o total das sentenças fosse zero. Não sou fã da Justiça do Trabalho, mas o primeiro passo de muitos para sua "extinção" seria a simplificação da legislação trabalhista, com foco em direitos humanos em vez de centavos em cálculos de rescisão.

Telegrafia BSD/Sockets

Daqui para frente, o texto só vai interessar a quem milita na área da informática.

Esse termo "telegrafia social" foi sincreticamente inspirado pela API BSD/Sockets. A comunicação com essa API tem um certo caráter telegráfico, na minha opinião. Não basta prestar atenção às mensagens; o ritmo delas também diz muita coisa.

Outra possível comparação é a conversa com uma mulher. Tem aquela piada onde o marido pergunta "O que você tem?" e ela responde "Nada!". Esse "nada" pode significar um monte de coisas, exceto "nada". Nós homens costumamos atribuir isso prima facie a irracionalidade ou loucura, mas a Internet inteira funciona desse mesmo jeito.

Assim como muitos homens nunca conseguem entender uma mulher, muitos programadores (muitos mesmo) não conseguem pegar o ritmo e a musicalidade dos Sockets. Fica a dica para algum estudo futuro que estude a correlação entre os programadores bons de rede e os bem-sucedidos com o sexo oposto, ou a pouca habilidade generalizada com redes × a pouca presença feminina nesta seara.

Vejamos por exemplo o cliente de rede a seguir:

HOST = 'google.com'
PORT = 80
BUFFER_SIZE = 1024
MESSAGE = "GET /index.html HTTP/1.1\n\n".encode('utf-8')

s = socket.socket(socket.AF_INET, socket.SOCK_STREAM)
s.connect((HOST, PORT))
s.send(MESSAGE)
data = s.recv(BUFFER_SIZE)
print(data)
s.close()

Conectar-se com o Google parece tão simples quanto lidar com um arquivo: abrir, ler, gravar e fechar. Esta simplicidade é ilusória, e na verdade exemplos como este acima são perigosos, pois muita gente acha que código de produção pode ser parecido com isso. Só para dar uma amostra da complexidade oculta:

A coisa fica ainda mais interessante do lado servidor, com o uso de select(), mas acho que já escrevi o suficiente para ilustrar o ponto.

Notas de rodapé

(*) A quem interessar possa, não sou misógino, sou misantropo. Matematicamente o primeiro é um subconjunto próprio do segundo, mas não sociologicamente. Ainda é permitido desprezar o gênero humano gozando de impunidade, desde que sem distinção de gênero e raça :)

(**) "Ele perdeu porque o advogado não era bom o suficiente" é o equivalente jurídico das viroses e alergias que os médicos alegam quando deparam uma afecção desconhecida.

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