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Resenha do livro The Big Con

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2013.12.30

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Sou grande admirador do ator Paul Newman. Minha esposa também, com tanto entusiasmo que às vezes fico enciumado. Em quase todos os seus filmes famosos, ele faz o "mesmo" papel: um sujeiro brilhante que se atrapalha na vida, e se reergue no curso do filme.

Três filmes particularmente recomendados: "A Cor do Dinheiro", "O Veredito", e "Golpe de Mestre". Este último, que faturou um milhão de Oscars, é baseado num livro: "The Big Con: the story of confidence men".

O livro não é um romance. É um estudo sobre os crimes de estelionato, tipo "golpe do bilhete premiado". Na lingua inglesa eles têm um nome específico: confidence game, ou simplesmente con game ou con. O nome vem do mecanismo básico do golpe, que é conquistar a confiança da vítima e em seguida atiçar sua ganância.

A rigor o livro nem é um tratado de criminologia. Foi escrito por um professor de linguística, David Maurer, que interessou-se pelo vasto jargão dos golpistas. O material reunido permitiu escrever en passant um livro esclarecedor sobre esta modalidade de crime, descrevendo as técnicas, os golpes, a personalidade dos criminosos, das vítimas, etc.

Até pela natureza inicial da pesquisa, o professor evita ao máximo preconceitos e mesmo julgamentos morais ao longo do texto, lidando com os aspectos do estelionato como se fosse uma profissão regulamentada.

O típico "grande golpe" tem sempre os mesmos ingredientes: o otário é escolhido como um parceiro honesto para um negócio desonesto, como apostar em lutas arranjadas ou ações da Bolsa com insider information. O golpe perfeito tem a fase de "esfriamento" do otário, de modo que ele vá para casa convencido que perdeu o dinheiro por azar ou acidente, sem cogitar que foi logrado.

Apesar do chavão "You can't con an honest man", o leitor é admoestado a não considerar-se imune aos golpes. Nem mesmo ler o livro oferece muita defesa, porque os golpistas estão sempre inventando novos golpes, e pouquíssimas pessoas têm autoconhecimento suficiente para enxergar a verdade: que somos menos honestos do que pensamos que somos.

Golpistas existem em toda parte, mas o con man é um personagem estadunidense por excelência, e sua arte teve o ápice no início do século XX, declinando depois da 1a Guerra e praticamente extinto no início da 2a Guerra. Este tipo de golpista encontrava respaldo na filosofia de darwinismo social reinante na época, sendo assim tratado com leniência e até com deferência. Ele está entremeado na história empresarial americana.

Por exemplo: as lojas de departamentos e as dollar stores (equivalentes às nossas lojas de R$ 1,99) são descendentes diretas dos esforços de golpistas. Tais lojas eram uma fachada para atrair os otários para o jogo das três cartas que rolava no fundo do estabelecimento. Até que um golpista percebeu que a frente da loja, além de legítima, estava dando mais lucro que o crime. Este con man morreu milionário, feito que poucos deles conseguem realizar. Como disse o sambista, às vezes ser honesto é a maior malandragem.

A atitude e os modos dos golpistas lembraram muito outro livro da mesma época, "A Lei do Triunfo" de Napoleon Hill. Este livro é o tataravô dos livros de auto-ajuda financeira, e nele o leitor é encorajado a ter uma atitude muitíssimo semelhante ao do con man: vestir-se bem, exalar autoconfiança e manipular as pessoas para se obter o que quer.

Num episódio do livro, Hill alega ter viabilizado a construção uma ponte ferroviária para que os trilhos chegassem à sede de uma determinada cidade. Seu método: dizer a cada uma das partes interessadas (prefeitura, ferrovia e um grande cliente da ferrovia) que ele já tinha dois terços do dinheiro necessário, e pedia apenas o "terço que faltava".

Foi um golpe, mas um "golpe do bem", porque é certo todas as partes ganharam alguma coisa. O interesse de Napoleon Hill na ponte era egoísta mas não exatamente cobiçoso: ele só queria desembarcar direto na cidade, sem precisar baldear de carroça por estradas lamacentas.

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