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Resenha: Bad Blood, de John Carreyrou

2020.01.19

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Este livro é sobre a Theranos, que foi por longos anos a grande joia do Vale do Silício.

A grande promessa da Theranos era fazer centenas de exames de sangue de forma automatizada, numa máquina-laboratório pequena e portátil, usando apenas uma gota de sangue da ponta do dedo, no estilo daquelas maquininhas que medem glicose do sangue, companheiras diárias dos diabéticos tipo I.

A Theranos caiu porque a) não conseguiu entregar nada nem próximo da ideia original, b) cometeu inúmeras fraudes para fingir que entregava o que prometia, e finalmente c) na tentativa de calar os dissidentes, usou de força excessiva com gente demais, alienando amigos e acumulando inimigos.

A ideia não é de todo má. Diversos notáveis ex-Theranos estão trabalhando hoje nesta mesma linha, porém mirando em objetivos mais palpáveis e menos pretensiosos.

Elizabeth Holmes é um produto notável da sua cultura e da sua época. A cultura norte-americana trata o 'con man' com leniência, e os anos 2010 também foram o auge do belpescianismo e da cultura fake it till you make it que permeia o Vale do Silício. O fato de ser uma mulher, jovem e bonita também ajudou: todo mundo estava sedento para ouvir uma história feminina de sucesso no Vale, e uma história acompanhada de fotos bonitas sempre vende mais.

Nenhuma fraude deste calibre se sustenta para sempre, mas a Theranos teve um grande sustentáculo nas peculiaridades do sistema judicial norte-americano. O medo de ser processado, e portanto de incorrer em despesas ruinosas com advogados, serviu de mordaça quase sempre. David Boies, o famosíssimo advogado, era o causídico da Theranos, depois também veio a ser investidor e membro do conselho administrativo da mesma.

O destino de todo brigão contumaz é acabar apanhando de um cara mais forte. No caso da Theranos, foi o ex-funcionário Tyler Schultz, principal fonte do jornalista investigativo John Carreyrou, do Wall Street Journal. Os pais de Tyler tiveram de vender a casa para cobrir US$ 400 mil em honorários advocatícios, só para garantir seu direito de botar a boca no trombone a respeito das fraudes e más práticas da Theranos. Para completar, havia um drama familiar subjacente: o avô de Tyler estava no board da Theranos. Por longo tempo, recusou-se a acreditar no neto.

A história tem um curioso paralelo cronológico e biográfico com a de Harvey Weinstein. (*) David Boies também foi advogado de Weinstein, e também empregou muitas ferramentas legais para intimidar as vítimas. Representar tão agressivamente dois vilões, e ainda perder no final (Holmes e Weinstein ainda vão ser julgados, mas já estão condenados no tribunal da opinião pública), custou um profundo arranhão na reputação do jurista.

Elizabeth Holmes vai enfrentar um julgamento com pena potencial de 20 anos de prisão. Dificilmente vai ficar na cadeia por tanto tempo; pesa a favor dela não ter metido a mão no caixa da empresa, nem ter escondido ativos. Ela realmente acreditava.

No mais a coisa está terminando conforme o esperado: Holmes conseguiu casar com um herdeiro rico e 8 anos mais novo. Há quem diga que ela pretende engravidar no momento exato para comover o júri com a barriguinha. Enquanto isso, os ex-empregados da Theranos que ficaram até o amargo fim estão queimados na praça e têm dificuldade em achar outro emprego.

(*) Não confundir com Jeffrey Epstein, o cara que mantinha escravas sexuais menores de idade numa ilha do Caribe e foi "suicidado" na prisão. Harvey "#metoo" Weinstein era diretor da Miramax e seu modus operandi era fazer "teste do sofá".