Site menu É o transporte, estúpida
e-mail icon
Site menu

É o transporte, estúpida

e-mail icon

2013.06.19

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

A onda recente de protestos pode não ser apenas por vinte centavos. Na minha visão é um protesto contra toda a "pilha" governamental — município, estado, União, e a nacionalização do movimento corrobora esta visão.

É certo que o "estado de coisas" merece ser alvo de manifestação popular, mas o fato da centelha ter vindo do transporte de massa também diz alguma coisa. No Brasil tudo vai mal, porém:

Em resumo, a atuação estatal e a situação do Brasil em si me lembra a palavra inglesa "patchy". Tem altos e baixos, pedaços bons e pedaços ruins. Com persistência, consegue-se achar os nichos bons e tocar a vida.

Transporte é uma exceção. Absolutamente nada relativo a transporte funciona como deveria. Não interessa a modalidade: carga, passageiros, transporte de massa, transporte individual, estradas, ferrovias, aeroportos, portos, you name it.

E transporte é tudo. É 110% daquilo que o consenso oco (querida expressão da Marina Silva) convencionou chamar de "Custo Brasil". Senão vejamos (com algum foco no transporte coletivo de massa):

O problema não é novo, mas uma conjunção de fatores torna o problema crítico. Dos fatores que vêm atrapalhando o transporte no Brasil desde sempre, enumero três que considero os "pecados capitais", em ordem crescente de importância:

Ladroagem

O DNIT é o eterno foco de denúncias de corrupção. Empresas de ônibus são sempre envolvidas com politicagem e corrupção no nível municipal. A briga entre transporte coletivo municipal e intermunicipal é sempre o ponto nevrálgico nas discussões das zonas metropolitanas.

Li em algum lugar que a Polícia Federal recusa-se a abrir novas investigações contra o DNIT porque há tantas já em curso que não há pessoal para lidar com mais nenhuma.

Sincretismo

Quando não encilham a ladroagem pura e simples nos meios de transporte, amarram a ele uma série de outros objetivos disparatados.

Um exemplo histórico interessante é a Guerra do Contestado, causada por uma ferrovia, que foi aberta com diversos objetivos sincréticos: viabilizar a ocupação do "sertão"; dificultar uma eventual invasão argentina; facilitar movimentação de tropas militares para a região. Os efeitos positivos e negativos do transporte para os caboclos que já moravam no local, se o excesso de curvas ia fazer o trem demorar demais para ser lucrativo... isso tudo era de menor importância.

Num outro exemplo, o governo estimula o crédito para vender automóveis, sabendo que não há estradas suficientes, porque isto estimula a economia no curtíssimo prazo.

Como bom brasileiro, tenho sangue europeu e o transporte de massa baseado em automóveis me dá urticária, mas é uma solução, é o que os EUA adotaram. Mas é claro que o estímulo à indústria automobilística no Brasil não tem a ver com facilitação da mobilidade para o povo. Se fosse, tiravam os impostos de importação, para que as carroças nacionais não tivessem os preços aviltantes que têm.

Como o transporte tem esta enorme importância, movimenta muito dinheiro e ninguém pode prescindir dele, mesmo que tenha de pagar os olhos da cara por algo ruim; as opções são mudar de país ou morrer de fome.

Como é que não há, até hoje, uma ligação rodoferroviária decente entre o Norte do país e o resto? Não é por problema ambiental, porque uma olhadela no Google Earth logo mostra que inexistência de estradas não obstou madeireiros nem o agronegócio... Aí, como tentam "resolver" o problema? Criando aquele arrego, a Zona Franca. Tentam viabilizar o desenvolvimento do Amazonas (o que é até um objetivo legítimo) encarecendo a vida de todos nós!

Burrice

Este sim é o grande problema. O governo sistematicamente destina os políticos, funcionários públicos e comissionados mais imbecis para os setores de transporte, em qualquer nível de governo, em qualquer época. Já mencionei este fato em relação à RFFSA.

Não é apenas burrice; é falta de imaginação, de ousadia. Mesmo pessoas que me pareciam inteligentes, parece que ficam burras de repente ao serem tocadas pelo assunto transporte, como se fosse uma pedra filosofal inversa que transforma ouro em bosta. A única solução que sabem dar é aumentar imposto para tentar "mudar" alguma coisa em termos relativos. Sempre em termos relativos, nunca melhorias absolutas. Vide esta asneira do Aloísio Mercadante. Logo este sujeito em que eu me sentia à vontade para votar até para Presidente. (Não mais.)

A Dilma é a mesma coisa. Todo mundo conhece as opiniões pessoais da Dilma, ela é estatista (coisa que não gosto), ela gosta de ferrovias (coisa que gosto muito). O que ela botou em prática? NADA! Ela é mais poste do que seus piores detratores disseram que seria, fica falando desta porcaria de trem-bala que na real não vai sair nunca, enquanto a grandíssima bola — o transporte ferroviário metropolitano de média distância — está aí, quicando há anos.

A prefeitura de São Paulo não faz melhor, propondo um brinquedo de parque de diversões como solução para transporte...

Falta ousadia, sobra transferência de culpa. Até o povo leva culpa — ah, porque paulistano é reaça, só quer mais avenidas, não quer ciclofaixas nem calçadões nem corredores de ônibus. Ué, não tem polícia? A polícia bateu direitinho nos manifestantes, então a fortiori pode reprimir motoristas recalcitrantes. Se paulistano é tão reaça e amigo do carro, porque os imóveis perto de estações de metrô são tão valorizados?

Para mim, burrice é pior que sincretismo, porque é possível fazer sincretismo com inteligência, onde todas as partes interssadas saem ganhando. Uma dose de sincretismo nesta questão sempre vai haver — se um político tenta impor uma parada de ônibus ou uma estação ferroviária no seu curral eleitoral, ele está fazendo seu papel, atuando em prol daqueles que representa.

A burrice é pior que ladroagem, porque, deixando as questões éticas e morais de lado um pouco, é possível roubar e ao mesmo tempo realizar. Um ladrão "respeitável" do ponto de vista intelectual daria um jeito de construir um transporte de massa dez vezes melhor, para poder roubar dez vezes mais. É inadmissível ver nossa vida definida por gente burra, é a essência da angústia da Elis Regina quando disse que o Brasil era governado por gorilas.

Ok, qual é o plano então?

Propostas

"Caro" e "barato" são conceitos relativos. A passagem de ônibus em torno de R$ 3,00 talvez não seja cara. Um serviço de teletransporte a R$ 20,00 seria barato, por outro lado um serviço ruim continua sendo custoso ao país ainda que gratuito. Gratuidade não é suficiente. O risco de um transporte 100% gratuito é o mesmo da educação 100% gratuita — gratuidade vira desculpa para má qualidade, as pessoas ficam intimidadas ao reclamar.

Não que a gratuidade não devesse ser perseguida. É uma meta ousada, mas o momento pede justamente ousadia. No mínimo um método completamente diferente de custear o serviço deveria ser pesquisado e tentado. Vou traçar um paralelo com a Internet. Você paga uma mensalidade, que ainda é "cara" (porque o serviço é relativamente ruim), mas o fato é que você paga uma taxa única, de 30, 60 ou 100 reais e consegue comunicar-se com o mundo todo. Há apenas poucas décadas, pagava-se por minuto e mais caro conforme a ligação telefônica fosse para mais longe.

Eu tenho a forte opinião que transporte é um serviço essencial como água e luz, cujos custos de capital são tão altos que é impossível custeá-los da forma convencional, ou seja, apenas cobrando passagens. É uma "anomalia de mercado", se me perdoam o jargão neoliberal. Assim como grandes hidrelétricas foram construídas pelo governo, transporte também tem de ser assumido por ele. Mesmo onde o automóvel foi adotado como transporte de massa, as estradas são construídas com impostos.

Não quer dizer que empresa de ônibus tenha de ser ela mesma estatal. A iniciativa do serviço é que deve ser. O governo pode subcontratar empresas para tocar o serviço. No que isto seria diferente de hoje? a) Responsabilidade primária. Se falta luz, o cidadão reclama e o governo age em questão de minutos; o tratamento do transporte tem de ser do mesmo naipe. b) Desvinculação total entre pagamento do serviço e fonte dos recursos. Tais recursos podem vir até dos impostos, que aliás já existem; boa parte do preço da gasolina é composto pelo tal CIDE, não é?

O governo tem de impor preço baixo, por concorrência, como faz ao comprar lápis e papel. É interessante observar que donos de empresas de ônibus são sempre riquíssimos, porém a atividade que exercem não tem mistério nenhum. Qualquer idiota consegue colocar diesel num ônibus e sair rodando. Enquanto isso, as empresas industriais, as de alta tecnologia, estão sempre comendo capim no Brasil. É uma curiosa inversão de valores.

Isto são medidas paliativas, é claro. São coisas para fazer amanhã. Para depois de amanhã, o grande lance é o transporte ferroviário de passageiros. Médias distâncias (até 200km), médias velocidades (100-150 Km/h). O ônibus e o automóvel tornam-se os transportes de "última milha".

É preciso ter ousadia para fazer corredores de ônibus, ciclofaixas, trilhos de trem, metrô e bonde. Em cima das ruas existentes mesmo! Se desapropriação é cara, então que se use as vias públicas para o público. O trânsito não vai parar. Vai até melhorar.

Uma das fontes de recursos para isto tudo seriam, naturalmente impostos, sobre automóveis e combustíveis. O interessante é que esta parte do plano já está implementada :) Talvez falte dinheiro, mas aí o governo tem de exercer seu papel distributivo, "forçando" a sociedade a investir a fundo perdido no transporte, porque o impacto positivo geral, ainda que difuso, é enorme, e a taxa de retorno sobre o investimento é boa demais para deixar passar.

São coisas óbvias o suficiente, ou quer que eu desenhe?

e-mail icon