Site menu Trinca de pequenos textos
e-mail icon
Site menu

Trinca de pequenos textos

e-mail icon

2018.05.01

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Há tempos venho tentando escrever sobre alguns tópicos, mas está difícil sair aquele textão perfeito e acabado para cada um. Então desta vez vou escrever sobre todos de uma vez, saia como sair, e dou o assunto por encerrado. Aliás, vou me abster de escrever nos próximos tempos; apenas assuntos técnicos e resenhas de livros (ainda estou devendo algumas para o amigo LVR) poderão furar o embargo.

O exemplo vem de baixo

Você já ouviu a frase "o exemplo vem de cima". Porém a ideologia de uma sociedade não é uma mentira imposta de cima para baixo pelos privilegiados; é uma ilusão coletiva. (Acho que foi a única coisa útil que aprendi nas aulas de Filosofia do segundo grau.) Naturalmente, ideologias ganham ou perdem embalo pelo movimento browniano das ações individuais, e parece óbvio que os que têm algo a ganhar com certa ideologia vão automaticamente agir em favor dela. Porém, achar-se um não-privilegiado não deveria ser desculpa para tirar proveito dela. O exemplo também pode vir de baixo.

O contexto, ou seja, no que eu estou pensando enquanto falo de ideologia, é a questão da pouca valorização do "trabalho de verdade" em nossa sociedade. Nem digo trabalho manual, o que seria muito clichê e hoje em dia qualquer trabalho manual envolve o uso de ferramentas sofisticadas; e trabalho intelectual também implica em desgaste físico, basta olhar quanta gente há em qualquer sala de espera de uma clínica de psiquiatria.

O respeito pelo "trabalho de verdade" tem dois sabores: deferência e remuneração. Por exemplo, o motoboy que me traz a pizza semanal. Sempre procuro conversar um pouco com ele e dou uma gorjeta. Não é do meu feitio puxar conversa nem com familiares, e tecnicamente o pagamento do motoboy está embutido na conta. Porém, me sinto obrigado a fazer estas coisas, porque é ele quem pega uma motinho paga a prestações, sai de casa numa noite chuvosa de sábado para matar minha fome, ou no mínimo absoluto evita que eu tenha de dirigir nestas condições adversas.

Não é minha gorjeta que vai torná-lo rico, tampouco. Mas os poucos reais que ele ganha por entrega eram renda bruta: teriam de cobrir uma fração da gasolina e da prestação da moto. Com minha gorjeta, torna-se remuneração pura do trabalho e do risco. Só não entende isso quem acha que seu pagamento mensal cai do céu. Se uma fração dos clientes do motoboy entender isso, o raciocínio passa a valer para a totalidade da renda dele. O único defeito é que eu estou compensando apenas o agente visível da cadeia que produz e entrega a pizza; ficam de fora o pizzaiolo, o entregador dos insumos, o agricultor... mas é melhor do que nada.

Dentre os inúmeros exemplos que eu poderia dar, mas estou com preguiça de escrever e creio que o leitor já pegou a ideia, vou citar ainda o que acontece no prédio onde moro, que é um microcosmo da sociedade. Nem vou mencionar o tratamento de "homem invisível" que os moradores dispensam aos serviçais. Fica interessante quando algum morador manda e-mail cobrando o síndico como se ele fosse gerente de um hotel de luxo, e não apenas outro morador que assumiu esta tarefa inglória de forma semi-voluntária. "Ah, mas o síndico recebe para fazer o que faz." Recebe, mas é um valor simbólico, qualquer um pode se colocar no lugar dele e pensar "se eu recebesse o mesmo valor, aceitaria esse tipo de desaforo?" Eu não aceito, por dinheiro nenhum, e nem mesmo de um familiar.

O Osvaldo é outro amigo que teria algumas histórias boas para contar, algumas das quais vivemos juntos no prédio em Recife, coisa do tipo ligar para o porteiro no dia de folga para subir todas as comidas e bebidas de uma festa por 10 andares porque o elevador quebrou.

Ainda no meu condomínio, de vez em quando alguém levanta a lebre "estamos gastando muito com recepcionistas e limpeza!!!!". Aí eu faço aquela conta de padeiro e provo por A mais B que, considerando X pessoas na equipe de zeladoria mais recepcionista 24 x 7, está todo mundo sendo remunerado no limite do salário mínimo. Pessoalmente, eu prefiro o conforto de ter sempre alguém para receber encomenda do correio e de quebra manter um olho vigilante, o que me custa não mais que uma pizza no boleto do condomínio. Não entendo esse frenesi de reduzir a zero os custos de mão-de-obra com uma mão, enquanto a outra mão gasta centenas ou milhares com restaurante, roupa, joia, carro, balada...

Acredito que o antídoto para este mal é descobrir em primeira mão quanto trabalho é preciso empregar para qualquer coisinha que seja. Lavar a louça, tentar consertar um objeto quebrado, pintar um cômodo, fixar um objeto na parede, mesmo cavar um buraco para plantar uma árvore são atividades que ensinam rápido quão penoso é realizar qualquer coisa; que os cinco minutinhos previstos viram logo duas horas. E, com a ajuda de um pouco de empatia, aprende-se a respeitar o trabalho alheio.

De esquerda ou de direita?

Tradicionalmente, define-se esquerda ou direita como ideologias que privilegiam a igualdade ou a liberdade, respectivamente. Conforme estas definições, sempre me julguei mais de direita, embora não de extrema-direita; alguma igualdade precisa haver, deve-se buscar uma mistura estequiométrica. Penso que todo mundo deve ter acesso a um iPhone, um automóvel de luxo e a uma boa casa, por exemplo. Eu aceito que um pedreiro demore um par de anos economizando para comprar um carro de luxo, enquanto o Bill Gates pode comprar um por minuto. Também aceito que um lixeiro não possa ter e/ou manter seu próprio helicóptero. E aceito muito bem que pessoas que decidam não trabalhar não devam ganhar uma casa de graça, senão a coisa vira ditadura dos "hipossuficientes". O que não aceito bem é que bens "normais" (como o são carro, casa, telefone) estejam permanentemente fora do alcance da maioria, independente de quanto se esforcem.

Mas ultimamente eu tenho empregado uma definição um pouco diferente. É de "direita" quem defende o status quo. É de "esquerda" quem deseja mudança no status quo. Numa sociedade extremamente desigual como a nossa, esta nova definição deveria um corolário da antiga. Mas, na prática...

Costuma-se dizer que no Brasil não há partidos de direita de verdade. O que é uma contradição, pois os maiores partidos, nenhum declaradamente de direita, são os responsáveis pelo status quo e defendem a manutenção de alguma fatia desse status quo. (Na minha opinião, o que se viu no impeachment da Dilma foi um raro embate público entre essas fatias.)

Então, o problema é o contrário do que se pensa: o que não temos, o que nos falta, são partidos de esquerda. O que temos são partidos de diferentes "sabores" de direita.

O DEM é "direita baunilha" conservadora: seu maior expoente é defensor do agronegócio. Não existe nada mais "status quo" no Brasil que defesa do agronegócio com base em argumentos pragmáticos e seculares, que inclusive atrasaram a abolição da escravatura em seis décadas... Ao menos o DEM é consistente: é de direita e se vê como direita. E tem consciência que ninguém gosta do sabor baunilha do sorvete Napolitano.

Os partidos de "esquerda" — PT e seus puxadinhos como PCdoB, PSOL, PCO, PSTU, etc. — são getulistas e sua base de apoio é o funcionalismo público/estatal. Não sei o que é pior. Mais recentemente, viraram os maiores defensores das empreiteiras. Também são os eternos resistentes a qualquer reforma. Defendem uma outra parte (e não pequena) do status quo, portanto são de direita. São o "sabor morango" do Napolitano, que de morango não tem nada mas tanta gente come só porque é vermelho.

O Bolsonaro é um produto do eterno conflito entre funcionários públicos civis e militares. Pode soar como mudança de status quo para quem tem menos de 30, mas não o é em termos seculares, já que a primazia do funcionalismo civil é coisa relativamente recente numa República que começou com um golpe militar.

Temos um e outro gato pingado da direita liberal. Agora tem até um partido, o NOVO. Este seria o "sabor chocolate" do Napolitano, desejado mas sempre escasso. Poder-se-ia dizer que NOVO é um partido de esquerda, pois realmente propõe mudanças no status quo. Por isso mesmo é atacado por "gregos e australianos" [sic].

Também temos alguns gatos pingados na esquerda liberal — esquerda de verdade. Gente como o Eduardo Jorge, sui generis até em debates presidenciais.

Se você quer que o Brasil mude, vote na esquerda, não importa o sabor. Mas em esquerda de verdade, por favor.

Guarde as melhores ideias para si

Uma coisa que me deixava curioso em alguns empregos que tive: às vezes um gerente ou diretor chegava pedindo para termos ideias, às vezes até usando a metafórica expressão "ideia de um milhão de dólares" ou "ideia de um bilhão". Pode me chamar de cínico, mas minha resposta em pensamento era "se eu tiver uma ideia de um bilhão, não vou entregar assim de bandeja".

Porém, como nerd sempre tem opinião (arrogante) pra tudo, é difícil passar um dia sem cometer exatamente este erro, atirando pérolas aos porcos e perdendo tempo, principalmente nas redes sociais. Particularmente, os SJWs me irritam e é difícil não responder, principalmente por muita vez tratar-se de gente inteligente, que eu percebo que bota o cérebro para dormir enquanto se entrega à "mentalidade de colméia".

Hoje eu vejo a coisa da seguinte forma: esses ativismos de Internet acabam servindo como um meio de controle social. É mais difícil fazer algo de relevante no mundo hoje que na Era de Ouro (1950-1970), então essas causas servem como válvula de escape, aplacam sentimentos de irrelevância e quiçá de solidão. Para muitos, pode até virar uma ocupação de tempo integral, o que é algo importante nesse mundo com poucos empregos interessantes. Às vezes dá certo (GamerGate), às vezes o tiro sai pela culatra (DongleGate).

Infelizmente, também é um meio de remover gente inteligente do processo decisório e da política. Enquanto os SJWs tentam impingir culpa coletiva a gente pálida e a portadores de cromossomos XY, quem realmente manda no mundo segue imperturbado. O que resta é fazer como estes últimos: ignorar o berreiro e trabalhar "de verdade", e se possível ganhando um troco no processo.

Surpreendentemente, a coisa não é muito melhor na seara técnica. Se a debacle da Nokia nos ensinou alguma coisa, é que as escolhas técnicas que são "obviamente" as melhores, ou que têm no mínimo alguma chance de ser disruptivas, são muita vez bloqueadas por motivos políticos.

Mais recentemente, em 2 ou 3 projetos que envolviam mobile, por conta de que pediram a minha opinião, defendi um desenvolvimento em fases, sendo que na primeira fase o "app mobile" deveria ser HTML5. Em todas as ocasiões fui voto vencido: preferiu-se desenvolver apps nativos — e os projetos não deram em nada, exatamente pelo motivo que levantei: desenvolver um site Web mobile-first e mais dois apps nativos é proibitivamente caro. Mas agora isso é regra, já que até o iOS aceita páginas Web "progressive" (e está desencorajando a publicação de apps de público restrito que caibam no outro paradigma).

Eu estava certo quanto aos apps HTML5, mas falhei no principal: ficar rico em função da posse deste conhecimento. Devo admitir que gastei mais tempo no Facebook do que aprendendo frameworks Javascript, e hoje os empregos para Angular e React são muito mais abundantes do que os para mobile. (Outras oportunidades de ficar rico que perdi só nos últimos 10 anos: comprar bitcoins em 2009 quando valiam US$ 2, criar um blog de esquerda em 2011, e criar um blog de fake news de direita em 2015. Mas também surfei ou pelo menos peguei um jacaré em outras ondas, então não devo ficar me queixando.)

Então, para não ser mais tachado de arrogante, doravante vou envidar todos os esforços para não mais opinar e não mais aconselhar, porque é perda de tempo. Antes tarde do que nunca.

e-mail icon