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Turnerfobia

2020.08.31

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

De vez em quando, vejo um post no LinkedIn, com a seguinte padronagem: um homem branco de meia-idade reclamando que foi rejeitado num processo de seleção por não possuir "suficiente diversidade", ou manifestando o temor de ser escanteado no mercado por não ser mulher, não ser preto, não ser gay...

Em suma, ele tem medo do famigerado racismo reverso, ou sentiu-se vítima de racismo reverso. (Doravante vou restringir a discussão ao racismo, mas a padronagem vale para sexismo, gerontofobia, etc.)

Partindo do pressuposto que tais posts sejam de boa-fé, meu cérebro reptiliano solidariza-se com eles, afinal estou no mesmo grupo de risco. Todo mundo tem medo de ser escanteado, ostracizado, perder os meios de sustento, ou virar bode expiatório dos males do mundo por algum critério puramente arbitrário. A lacração que come solta no LinkedIn ajuda a amplificar esse medo.

Agora, religando o neocórtex e sendo bem realista, qual a chance disto realmente acontecer — do mundo virar de cabeça para baixo, e homens brancos virarem párias? Certamente é possível. Tudo é possível. Mas é improvável.

Conforme disse em outro texto, privilégio e mérito têm uma certa correlação, mas não cancelam-se mutuamente. Há muito o que fazer no mundo, o talento humano é o recurso escasso. Mesmo num mundo em processo de inversão, quem atingiu a excelência por meio do seu privilégio tende a continuar no seu lugar.

Dois casos costumam ser citados como exemplos de inversão trágica: África do Sul e Rodésia. Em ambos, uma minoria branca (e bem opressora) deu lugar a um governo da maioria, de supetão. A propaganda é que estes lugares enxotaram a gente branca qualificada, com resultados desastrosos. Na verdade, os governos pós-apartheid tomaram extremo cuidado em não fazer isso. Sim, cedo ou tarde os latifundiários brancos seriam expropriados, mas isso estava escrito na parede, e tiveram uma geração para se adequar.

Batizei este medo do mundo invertido de "medo dos Diários de Turner". O livro Os Diários de Turner é uma espécie de Alcorão do alt-right racista dos EUA. Descreve um mundo distópico futuro, controlado por pretos e judeus, em que os brancos não podem ter armas e vão para a cadeia se praticarem qualquer ato de autodefesa.

Esse era o livro de cabeceira do Timothy McVeigh. O atentado de Oklahoma foi inspirado num episódio do texto ficcional. Li em algum lugar, não posso confirmar pois não achei a fonte, que o próprio McVeigh achava meio exagerado o sobretom racista do livro (!!) ainda que concordasse com o grosso das teses.

Não li esse livro em particular, mas já li outros da mesma classe. Aconselho a não subestimar o poder de convencimento desse tipo de literatura. Eles pressionam todos os botões do seu cérebro reptiliano.

Para a gente razoável, é coisa escrita por malucos para malucos, portanto inofensiva, mas não é bem assim. O autor dos Diários era cientista, e seu objetivo manifesto era atingir um público de estrato mais elevado, escapando da sina da Ku Klux Klan que vivia confinada no gueto "white trash".

Mas por que estes cenários de mundo invertido assustam tanto? Por que somos tão sensíveis a sintomas dessa iminente inversão?

Um fator é que notamos instintivamente as primeiras e segundas derivadas de um movimento — seja físico, seja social; e procuramos extrapolar a nossa posição no futuro. O sujeito vê aquele monte de postagens lacradoras no LinkedIn e deduz que, nesse ritmo de mudança, ele vai amanhecer enforcado num poste daqui a seis meses.

Outro ponto é o medo da retribuição. No fundo nós brancos sabemos que a injustiça contra os pretos é enorme e secular, que não faltam motivos para que estourem revoltas generalizadas (como as que têm acontecido nos EUA por esses dias), seguidos de uma maré de atos de retaliação e vingança. Afinal é isso que humanos de qualquer matiz fazem no calor da hora, não é?

De certa forma esta foi a mentalidade pós-escravagista: o que se fez aos afrodescendentes está além de qualquer cura, então seria melhor eliminá-los, ou rezar para que a miscigenação o faça. (Isto lembra um pouco o conto sobre a cidade de Omelas, que diz bastante sobre como o ser humano digere uma injustiça, principalmente quando os possíveis remédios ameaçam seu modo de vida.) Mas convenhamos que não é uma mentalidade muito construtiva. E tampouco a miscigenação resolveu nosso problema: um branco e um preto terão experiências de vida diametralmente diferentes ainda que sejam irmãos gêmeos.

Há os ativistas profissionais que, como é típico do ser humano, usam a causa para granjear atenção, poder e dinheiro. E o método mais eficiente de atingir esses objetivos é falar as maiores bobagens possíveis. Mas convido a não deixar seu cérebro reptiliano racista (*) nivelar o desejo por justiça social por baixo, pelas burradas dos ativistas mais abestalhados.

Acho que o Michael Moore diz algo assim no seu livro Cara, cadê o meu país? Que, na hora de convencer um conservador ou reacionário, deve-se mostrar que ele também lucra com cada progresso da justiça social. A velha história que mel captura mais moscas que vinagre.

(*) Porque todo mundo é racista; o estado natural do ser humano é viver numa tribo isolada de 100-150 almas, e descer o cacete em qualquer intruso.