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O beta que ficou bilionário

2017.08.18

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Esta é uma breve resenha do livro "Things a little bird told me", de Biz Stone, co-fundador do Twitter. Li o original em inglês, presenteado a mim pelo amigo Luciano Veiga. Não sei se há versão em português.

Em primeiro lugar, é um bom texto sobre a história do Twitter. Naturalmente não é um texto imparcial, mas é uma boa fonte. E foi para mim a parte mais inspiradora do texto. Por exemplo, nos temos em que boa parte dos updates do Twitter vinha pelo SMS, todo o tráfego internacional de SMS era intermediado por um laptop velho, que ostentava um post-it escrito à mão: "Não desligue!!!".

Muitas vezes deixamos algumas iniciativas de lado porque não podemos executá-las de forma tecnicamente impecável, mas empreendimentos de verdade não funcionam assim. Quando a gente trabalha na empresa pequena, sonha com a empresa grande onde a gente acha que tudo acontece com método, equipamento adequado e abundância de recursos.

Mas quem "chega lá" descobre que também lá muita coisa acontece na base do improviso, nunca sobra dinheiro para adquirir o melhor equipamento para todo mundo, e nós nerds/engenheiros continuamos a julgar mal os empreendedores, em vez de aceitar tudo isso como fatos da vida.

Biz Stone é o oposto do nerd típico em muitas dimensões: é uma fonte permanente de ideias criativas, um otimista incorrigível e um crédulo na bondade inerente do ser humano. Projetou uma imagem de blogueiro famoso, e cavou com ela um emprego na equipe Blogger do Google, quando era na verdade um cara que morava no porão da casa da mãe e tinha desistido da faculdade. Os demais co-fundadores do Twitter são gênios mais "convencionais": Evan Willians (criador do Blogger, ficou milionário vendendo-o para o Google, mais recentemente fundador da Medium) e Jack Dorsey (fundador da Square).

Por um lado é emocionante a história de superação de Stone, que flertou com a pobreza até o Twitter decolar. Por outro lado, noto algumas inconsistências. Por exemplo: a namorada de Stone, cujos pais segundo ele eram bem pobres, "trabalhava" cuidando de animais abandonados em casa, inclusive uma tartaruga! Certo dia, ela foi viajar "a trabalho" e deixou Stone encarregado dessa bicharada, sendo que ele já tinha uma baleia azul (*) para tomar conta. Talvez eu seja antiquado, mas isto me parece uma tremenda falta de foco.

Mas quem sabe as mentes criativas funcionem assim, e o segredo do casamento feliz seja um marido banana? (Biz Stone casou-se, e continua casado, com a moça dos bichos; e é um promotor de causas relacionadas a bem-estar animal.)

Ler o livro em 2017 também empana um pouco do brilho porque, como se sabe, o Twitter está com problemas para firmar-se como empresa lucrativa. Na época em que o livro foi escrito (2014) as perspectivas eram mais róseas; o Twitter ainda era considerado um igual frente ao Facebook, hoje em dia está claro que o Facebook está noutro patamar. Embora eu pessoalmente veja o Twitter como mais inovador, mais culturalmente influente com seus idiomatismos #como @estes.

A propósito, Biz Stone está voltando para o Twitter, embora o cargo oficial ainda não tenha sido especificado.

(*) Baleia azul era a figura exibida pelo site do Twitter quando o serviço saía do ar, o que era bastante comum nos primeiros anos.