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O torturador que roubava livros

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2016.05.14

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

O falecido coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra voltou à ribalta nesses dias, pela mão (ou pela boca) do Bolsonaro. Para quem não sabe, Ustra chefiou o DOI-CODI de São Paulo, de triste memória, entre 1970 e 1974.

O Ustra é um personagem esquisito, porque ele não cabe no estereótipo de torturador troglodita, que uma vez tendo perdido o emprego no governo vai "trabalhar" como pistoleiro na esfera privada. O estereótipo foi cevado pela produção cultural dos anos 80. Duas obras me vêm à mente. Uma é a novela "Roda de Fogo", onde um ex-Esquadrão da Morte trabalhava como faz-tudo do arqui-vilão da novela. Também tem um filme, "Faca de Dois Gumes", de 1989, que eu teimo em ver quando passa no "Festival Nacional" e sempre me custa uma semana de sono ruim.

Não sei quem saiu-se com esse estereótipo, talvez seja derivado do célebre capitão Guimarães. Mas em algum momento os próprios militares encamparam-no porque é mais fácil negá-lo. Esses órgãos de repressão, tipo DOI-CODI, etc. escolhiam integrantes a dedo, em alguns casos exigiam até curso superior. O mesmo acontecia nos DOPS estaduais. (O livro "Autópsia do Medo", de Percival de Souza, detalha essas questões, mas infelizmente já doei este livro para a biblioteca e não posso mais conferir.)

Mas eu tenho um outro livro aqui, "Olho por Olho", de Lucas Figueiredo. É um texto eletrizante, pois conta a história de outro livro bombástico, o "Brasil: Nunca Mais", que denunciou torturas e torturadores em 1985. A base do livro foi o conteúdo dos processos do Superior Tribunal Militar, que uma equipe de advogados solicitou um a um, tirou cópia, filtrou informações e compôs o livro, debaixo do nariz dos vários órgãos de inteligência do regime: CIE, CISA, SNI, DOI-CODI (que estava desdentado mas não tinha sido extinto ainda) e DOPS estaduais. Destaque para a figura de d. Paulo Evaristo Arns, que coordenou o trabalho.

A resposta dos militares foi literalmente olho por olho, dente por dente: trataram de escrever um outro livro para rebater o "Brasil: Nunca Mais". Projeto de codinome "Orvil". Na hora de publicá-lo, o presidente Sarney vetou. Num fenômeno psicológico coletivo interessante, o Exército digeriu o veto tornando o livro secreto.

Alguns militares "roubaram" cópias do Orvil, apenas 18 no total. A intenção desses "guardiães do Orvil" era estudar o livro, disseminar seu conteúdo entre seus pares mais confiáveis — sempre de mão em mão, sem tirar mais cópias — e quiçá preservar o conteúdo da destruição. Honraram por longos anos a promessa informal de não reproduzir o conteúdo nem divulgá-lo fora do círculo de iniciados. Um deles, o coronel Ustra.

Além de estar no famoso listão de 444 torturadores derivado do trabalho do livro "Brasil: Nunca Mais", Ustra ficou "famoso" por um episódio em 1985: uma deputada que teria sido torturada por ele encontrou-o como adido militar no Uruguai, e naturalmente botou a boca no trombone. Injustamente ou não, Ustra tornou-se o protótipo do torturador.

Mas Ustra, apesar de reservado e de passado negro, era persistente e dotado de habilidades não só com a espada, mas também com a caneta. E nunca digeriu o episódio no Uruguai. Como resposta, escreveu dois livros ("A Verdade Sufocada" e "Rompendo o Silêncio"), criou o site "A Verdade Sufocada", participou ativamente da criação do mais antigo TERNUMA - Terrorismo Nunca Mais que tinha inclusive lista de discussão. Os livros foram baseados no livro secreto "Orvil", que inevitavelmente foi vazando aqui e ali, e hoje está publicado na íntegra no primeiro site.

Conforme cita o livro "Olho por Olho" essa publicação integral também foi uma resposta à disponibilização on-line do material bruto que deu origem ao livro "Brasil: Nunca Mais". Caneta contra caneta. "A guerra continua — olho por olho."

Ustra tinha uma curiosa e improvável ligação com o jornalista Elio Gaspari. Talvez porque Gaspari tenha sido um dos poucos que noticiou o lançamento do livro do coronel; quase todos os meios de comunicação compreensivelmente boicotaram o lançamento. (Gaspari também foi o primeiro a ter coragem de dar publicidade, em 1985, o "Brasil: Nunca Mais"). As opiniões do jornalista sobre a ditadura são inequivocamente negativas, conforme pode ser constatado no seu compêndio sobre a ditadura "As Ilusões Armadas". Aliás, o quinto e último livro do compêndio será publicada em junho próximo. Ustra prestou informações técnicas aos livros de Gaspari, tanto sobre hierarquia militar como sobre a estrutura interna dos DOI-CODI, e ganhou até um agradecimento no prefácio.

Ustra nunca admitiu malfeitos e nunca mudou de opinião a respeito dos adversários. Há muito de Dilma em Ustra: a certeza imorredoura de estar certo. (Eu podia dizer que há muito de Ustra em Dilma, mas seria maldade minha; é forçoso admitir que Ustra tem mais pecados a pagar que Dilma, neste mundo e no próximo; e a Dilma começou a pagar mais cedo.) Assim como muita gente é seduzida pela teimosia de Dilma, Ustra também arregimentou seus adeptos.

Essa discussão sobre tortura é, infelizmente, tingida por matizes ideológicas. Não é o caso de seguir a linha do Bolsonaro. Não dá pra ser ingênuo. Por outro lado, é difícil não desconfiar de exageros.

Nos primórdios da Internet, fiz uma visita ao site "Tortura Nunca Mais - RJ". Olhei daqui e dali, até que cheguei numa seção "Torturadores Modernos". Opa, isso é importante, pensei eu. Para minha surpresa, estava elencado, entre outros, o... Pedro Malan, ministro da Fazenda da época! Desnecessário dizer que a credibilidade do resto do site, aos meus olhos, foi por água abaixo. E tomo qualquer informação sobre o tema com um gigantesco grão de sal desde então.

Outra coisa que me causa espécie é a inexistência de atos de vingança pessoal, que seriam esperados dada a gravidade das acusações contra os torturadores. Eu teria procurado me vingar, porque nunca esqueço uma ofensa, grande ou pequena. Talvez haja um pouco de Ustra em mim.

O Olavo de Carvalho tem uma explicação perfeita para isso: os esquerdistas agem como colméia e não fazem nada que não esteja de acordo com O Grande Plano Gramsciano Para Tomar O Poder. O que não é novidade: ele tem explicações simples, lógicas e erradas (e às vezes risíveis) para absolutamente tudo. Se alguém tem direito de acreditar em solipsismo, é ele.

Falando em vinditas, os acontecimentos recentes mais graves foram os assassinatos dos coronéis Malhães e Molina, ambos envolvidos no assassinato de Rubens Paiva e que tinham concordado em depor sobre o assunto. O famoso Major Curió também já afirmou que haveria um pacto de silêncio entre agentes da repressão. Ainda que não tenham sido assassinatos mas sim latrocínios que visaram as coleções de armas que ambos coronéis tinham, é o tipo de caso que a polícia teria de investigar à exaustão, e continuar investigando de novo e de novo por anos a fio, porque é impossível não desconfiar que forças de outra ordem tenham atuado.

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