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Resenhas: "A prosperidade do vício" e "O culto do amador"

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2015.10.18

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

A pilha de livros que o amigo LVR mandou há algumas semanas atrás ensejaria uma resenha coletiva em vídeo, mas o volume de trabalho mais a necessidade de "afiar as ferramentas de trabalho" tem prejudicado a leitura e portanto a possibilidade de resenhar os tais livros. Consegui ler dois, até agora. Então as resenhas vão sair por escrito mesmo, em doses homeopáticas. Também tenho aproveitado cada oportunidade de bater um texto usando o teclado novo.

A prosperidade do vício, de Daniel Cohen

O título refere-se à constatação do autor que a economia mundial, nas últimas décadas, tem se baseado no consumo conspícuo para manter-se funcionando. A razão disto é a dependência financeira, econômica e até mesmo política em crescimento econômico contínuo, que obviamente não é eternamente sustentável. Os "30 anos de ouro" após a II Guerra Mundial acostumaram muito mal todas as instituições.

O autor chega a algumas conclusões que ultrapassam a economia e adentram a sociologia. Por exemplo, ele relaciona a solidariedade num nível mais amplo (e.g. pagar impostos, aceitar uma distribuição mais igualitária de renda em vez de outra mais meritocrática) ao crescimento da economia. Numa economia que não cresce, o futuro não é risonho e essas modalidades de solidariedade definham. A previdência é um exemplo perfeito: numa situação em que nem população nem economia crescem, é quase óbvio que as pessoas jovens vão preferir viver (ou sobreviver) em vez de financiar pensões e aposentadorias, porque esses jovens não têm a perspectiva de receber o mesmo benefício.

Para fundamentar suas conclusões e suas previsões, o autor faz uma grande revisão da história econômica, começando desde a Pré-História, passando pelas civilizações orientais, revolução industrial, colonialismo, questões ecológicas e ambientais, etc. Dizem que o importante é a viagem, não o destino, e de forma análoga eu vejo o maior valor desse livro justamente nessa digressão histórica.

Cohen é francês e aparentemente admirador de Keynes, mas mesmo assim ele se esforça bastante para entregar um texto equilibrado do ponto de vista da ideologia, e nesse esforço mostra como o keynesianismo tem sido aplicado de forma incompleta e amadora mundo afora. (E evidencia o mesmo em relação às teorias de Marx e Adam Smith.) Aquilo que os brasileiros já desconfiavam, só de ver a Dilma discursar e governar, Cohen confirma: os estadistas lêem duas ou três páginas de Keynes, acham que entenderam a coisa toda, e saem aplicando.

O culto do amador, de Andrew Keen

Este livro tem essencialmente as mesmas teses do "Gadget - você não é um aplicativo" de Jaron Lanier, que inclusive já resenhei faz bastante tempo. Até o background dos autores é semelhante: gente que foi influente e fez dinheiro na tecnologia da informação e de repente caiu em desilusão.

A glorificação da "criatividade individual" prometida pelas novas tecnologias, segundo os autores, não passa de uma mistura de besteirol com plágio. A cultura e o jornalismo "de verdade" deixam de existir, mortos por inanição devido à pirataria e à cultura do "tudo tem de ser de graça", e são substituídos por vídeos idiotas do YouTube, artigos tendenciosos na Wikipedia, e "jornalismo de Facebook".

Para mim foi uma leitura monótona porque eu já tinha lido o "Gadget", então foi uma repetição de idéias, e "O culto do amador" expõe estas mesmas idéias de forma menos bem acabada e menos convincente. Eu quase ia escrevendo nesta resenha que tratava-se de uma repetição da mesma ladainha, mas tem um detalhe: "O culto do amador" foi escrito em 2007, enquanto o "Gadget" é de 2010. Então na verdade o segundo é que é uma reafirmação mais bem acabada do primeiro.

Para quem se interessa pelas teses, "Gadget" continua sendo o livro recomendado, inclusive por ser mais recente.

"O culto do amador" mostra a idade: coloca Microsoft e MySpace como os grandes vilões, e todos sabemos que esses dois já morderam o pó. O fechamento de uma certa loja de LPs é o símbolo da morte da música boa, certamente o autor não desconfiava que em 2015 os LPs estariam vendendo bem! Keen também bate bastante nos blogs, que segundo ele tinham o conteúdo equivalente ao produzido por um bilhão de macacos batendo em máquinas de escrever; hoje em dia os blogs famosos são quase todos ligados a grandes conglomerados de mídia. Não foi a cultura geral, mas sim os próprios blogs amadores de conteúdo pífio que se afogaram no oceano que criaram.

Em comum...

Os dois livros tratam de assuntos diferentes, mas ambos falam sobre "agonias modernas". Não sou um catastrofista (um pouco pessimista, talvez) mas me interessa especular para onde o mundo está indo. Se você também se interessa, pode achar esses livros uma boa leitura. Se você for decididamente de esquerda (ou de direita) e quer revisar seus conhecimentos de economia, pode ler o primeiro livro sem medo de ser ofendido.

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