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Resenha de filme: Whiplash (2014)

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2018.01.29

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Não sou muito de ver TV, nem de ver filmes ou séries. Gostar de uma produção audiovisual a ponto de resenhá-la é algo raro. Não estou alegando estar acima da patuleia só porque não vejo TV; meu lado "entertainment" é alimentado pelo YouTube, e gosto de vídeos de gatinho e de Schadenfreude (*) como todo mundo.

Mas, quando gosto de um filme, acabo assistindo dezenas de vezes, foi o caso do Whiplash (2014), disponível no Netflix.

O enredo trata de Andrew, um ambicioso estudante de música que consegue ingressar na banda de jazz do exigente e irascível professor Fletcher. Todos os alunos do conservatório desejam tocar nessa banda, porque é onde se concentra a atenção dos olheiros de orquestas de renome; é a porta de entrada para a "primeira divisão" da carreira musical profissional — uma carreira notória por não remunerar bem senão os que estão no topo.

Entrar na banda é uma coisa. Permanecer nela é bem outra, devido à exigência técnica e principalmente devido ao desgaste emocional proporcionado não só pela personalidade tóxica do professor, mas também pela intensa rivalidade.

Em inúmeros aspectos, Whiplash é a antítese do típico filme hodierno. Foi rodado com um orçamento minúsculo para os padrões hollywoodianos: US$ 3 milhões. Tem um, e apenas um, efeito especial. É como um filme antigo no estilo Sunset Boulevard: uma boa história com boa filmagem e bons atores. Os músicos que não têm falas são realmente músicos profissionais. O ator principal realmente toca bateria (não tão bem quanto o filme sugere, mas toca) e teve de treinar por longos meses, até sangrar os dedos de verdade, para estar apto ao papel.

Análise

A referência mais óbvia é o filme Full Metal Jacket. É fácil encontrar o sargento Hartman, mas também ecoam outros personagens como Gomer Pyle.

O estilo musical — jazz — foi escolhido a dedo para o filme. Como disse o meu amigo Osvaldo, todo branco é racista (**) e fiel à forma minha reação reflexa a jazz e blues era pensar "música de preto viciado". De jazz eu realmente não conhecia nada; o blues eu já tinha descoberto como o melhor estilo musical para testar um aparelho de som, em minhas breves incursões pela audiofilia (como esta e esta). De fato, jazz e blues não exigem apenas bom equipamento na reprodução: também são extremamente difíceis de executar porque todos os instrumentos, e todas as pisadas de bola, aparecem distintamente. São a antítese da música clássica de orquestra onde a aderência exata à partitura é a máxima virtude. É fácil passar anônimo no meio de uma entena de músicos, exceto talvez pelo primeiro violinista num Concerto em Mi menor de Mendelssohn ou num Concerto em Ré menor para dois violinos de Bach, este último uma das músicas prediletas de Steve Jobs.

Falando em Steve Jobs, parece haver uma referência a Jobs quando o professor Fletcher expõe seus motivos num momento de (fingida) descontração. Fica para o espectador avaliar a linha demarcatória onde os fins deixam de justificar os meios. Para mim, o limite é a integridade da equipe. Já vi projetos onde uma liderança excessivamente ambiciosa levou a equipe a produzir um excelente produto, mas ao mesmo tempo causou a destruição da equipe, com direito a estilhaços pegando em outros projetos — gente procurando outro emprego ante à mera expectativa de ser remanejado para a equipe "difícil". Vale a pena ter sido a banda de uma música só? Talvez não. Talvez sim. Talvez talvez.

Uma liderança anti-Jobs, pasteurizada e destituída de paixão também não é o caminho. Um chefe que não exorta seus subordinados a andar uma "milha extra", que diz "bom trabalho" para um trabalho que não é realmente tão bom para não ofender a sensibilidades de ninguém, também não é bom. Não deixa de ser uma forma de desprezo, conforme já escrevi neste outro artigo. Melhor um Fletcher que um anti-Fletcher, se querem saber o que eu acho.

Sótão de memórias

O filme também me marcou por mexer no sótão de memórias. Para quem não sabe, estudei um pouco de música, entre os 10 e 12 anos. Foi para mim uma experiência ambígua, por diversos motivos. Na época, julgava tudo aquilo uma perda de tempo e tive grande prazer em me livrar das aulas de música em favor dos computadores.

Não foi uma má troca; já na época eu podia ver em primeira mão a ciumeira, a rivalidade entre alunos, e que isto desaguaria numa carreira extremamente difícil, inclusive em termos financeiros. A "loucura" de um bom músico é bem diferente da "loucura" de um engenheiro ou cientista. Por mais que se fale da "cultura tóxica do Vale do Silício", é certo como 2+2=4 que nós nerds somos mais talhados à colaboração, à ajuda mútua e à contestação da autoridade. É claro que eu invejo um Satoshi Nakamoto, mas é uma inveja no estilo "O que esse cara come no café da manhã?", não no estilo "Quero matar esse cara!" (o que seria difícil, já que Satoshi Nakamoto é um pseudônimo que não se sabe a quem pertence. Pessoalmente, aposto em Nick Szabo.).

Com o tempo, muuuuuuuuito tempo, fui enxergando algum valor na experiência, como quem encontra tesouros enterrados. Até porque a maioria dos nerds se interessa por música. Do meu círculo próximo, um é tecladista na igreja, outro já foi DJ, dois outros tiveram banda punk, ainda outro estuda violino... eu que apenas sei ler uma partitura e tenho ouvido absoluto, sou o "macho ômega" da alcateia.

Aliás, quanto ao ouvido absoluto (comum em pessoas com Síndrome de Asperger, que acredito possuir) eu achava que isso me concedia "poderes especiais" enquanto estudante de música, uma presunção besta da minha parte (eu só tinha 10 anos, afinal de contas). Na verdade isto pode ser uma grande maldição para um músico porque existem muitos instrumentos antigos, principalmente órgãos de igreja, com afinação diferente; praticamente todo rock afrouxa as cordas em 1 ou 2 semitons. Nem vamos falar de diferentes temperamentos de escala. Ouvido absoluto é realmente útil quando, por exemplo, se ouve uma máquina funcionar e se reconhece imediatamente um defeito quando muda o "pitch".

O maior problema com a escola de música é que meu maior interesse, como nerd, era na parte físico-matemática da música, enquanto a ênfase do ensino era na parte subjetiva. (Infelizmente, ninguém pôde matar esta minha "sede" na época; ninguém do círculo próximo conhecia a Transformada de Fourier.) Para mim, ouvir uma música executada por um pianista ou por um piano automático tinha o mesmo valor. (Meu gosto por Bach e órgão pode ser um vestígio deste pouco apreço pela colaboração do intérprete.) O lado sentimental só foi despertado com a primeira dor-de-cotovelo, lá pelos 14 ou 15 anos.

Minha "nêmesis" era a professora de iniciação musical. Em parte por concentrar os assuntos que eu menos gostava. E talvez em parte por projetar uma figura materna: minha mãe "obrigava" a estudar música, a professora "obrigava" a aprender assuntos que não me interessavam. Trinta anos depois, nos reencontramos e, numa conversa casual, ela mencionou o GEB. Sim, o famoso Gödel, Escher, Bach de Douglas Hofstatter, a "Bíblia dos nerds". Me senti o maior trouxa do mundo: ter tido aulas 3 anos com alguém que leu o GEB e não ter sugado até à ultima gota o que ela tinha a oferecer.

É comum o aluno decidir que tem um descasamento de impedância com o professor, e com isso privar-se de aprender um truque ou dois. Novamente, minha epifania nesse front veio na adolescência. Eu tinha um professor de Física que era muito bom em dinâmica, termodinâmica, etc. mas realmente não entendia nada de eletricidade. Eu entendia; mexo com eletrônica desde criança, mas como ele tinha sido bom professor até então, procurei manter um perfil baixo. E aprendi, com este professor, um aspecto da eletricidade (***) que até então não tinha entrado na minha cabeça, o que tinha me custado inclusive a reprovação num curso de eletrônica por correspondência (outro trauma de infância).

Por outro lado, me entendia bem com a professora japonesa de piano. Além de eu apreciar mais "colocar a mão na massa" musicalmente, o estilo de liderança dela foi o protótipo do tipo de chefe/gerente que eu aprecio: sempre balançando a cenoura na frente do burro, fazendo-o andar a "milha extra", mas um passo de cada vez. A pressão era constante, mas não era "explosiva". Ninguém xingava ninguém se não cumprisse as metas de uma semana, mas as metas eram anotadas no caderninho para a próxima semana com um emoji irônico (ainda lembro que ela desenhava as carinhas na horizontal, no estilo mesmo dos emoji japoneses). Exigia que eu decorasse as partituras, o que achei abusivo no começo, mas demonstrou ser correto: era uma baita preocupação a menos durante a execução. (O personagem principal de Whiplash deu-se bem pelo mesmo processo.)

Notas

(*) Nessa linha de "ver os outros se ferrando", vídeos de motoqueiro tomando fechada e enquadro da polícia são meus prediletos.

(**) Meu pensamento a este respeito é: "todo ser humano é racista", já que evoluímos para viver em tribos etnicamente uniformes de no máximo poucas centenas de pessoas. Quanto ao estereótipo de "preto viciado" — agora que a América branca rural está largamente viciada em opioides, finalmente o problema está sendo olhado por um ângulo não-policialesco. (A título de curiosidade, em boa parte da Ásia os opioides podem ser comprados sem receita médica em qualquer farmácia, e nem por isso há hordas de dependentes.)

(***) Refiro-me ao conceito de queda de tensão, Num resistor ela segue a Lei de Ohm e é proporcional à corrente, mas segue leis completamente diferentes em bobinas, capacitores, motores, etc.

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