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Adeus ao Xenical

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2015.11.12

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

No artigo anterior falei do "efeito Bruder", também conhecido como "Valor Bruder Agregado" (VBA), ou ainda "Bruder tested & approved". Basicamente, se um produto novo na loja custa 100, a versão do ano passado do mesmo produto, usada, vale 130, desde que comprada da mão do Bruder.

Óbvio que é uma brincadeira. Ou talvez o leitor deva avaliar...

No início de 2010, comprei um Macbook White Late 2009 por 2100 reais. (Bons tempos, hein?) Era meio fraco, pouca memória, pouco disco; mas desde o início tinha sido um computador pensado para uso casual da esposa; eu compraria um melhor para trabalhar assim que pudesse. Na metade de 2010, estava eu no aeroporto esperando o vôo, o Bruder me oferece um Macbook White Early 2008 por... 1800 reais. Claro que com 4GB de memória e 500GB de disco. Negócio fechado via IRC, em 5 minutos.

Não foi baratinho, sem dúvida o imposto VBA estava embutido no preço, mas também não foi um mau negócio. Tanto o "Bitcho" como o Bruder têm uma fama (e esta uma fama comprovada, não é lenda) de cuidar bem do hardware, então comprar um computador usado, só se for de um ou de outro. O costume aqui na minha rede é batizar as máquinas com nomes de remédio; como o ex-dono do novo-velho Mac é ex-gordo, a nova máquina da LAN foi devidamente batizada de Xenical.

O Xenical foi meu "cavalo de trabalho" por muitos anos e viajou meio mundo, até que mais recentemente foi excluído das atualizações do OS X. Por algum motivo relacionado a hardware, o "ponto de corte" para atualizações desde o OS X Mountain Lion é o Macbook Early 2009. Ainda servia para tudo exceto desenvolvimento para iOS, já que o Xcode mais recente exige um OS X recente também. A única coisa que estragou no Xenical foi a bateria, o que é normal porque uma bateria de lítio só dura 5 anos a partir da fabricação, use muito ou pouco.

Curiosamente, a unidade de disco SuperDrive do Xenical sempre foi a de melhor desempenho. Nos demais Macs, gravar DVDs foi sempre uma loteria, com uma taxa de sucesso de 2/3 para DVDs cheios. DVDs de dupla camada então, era perda de tempo tentar gravar nestes últimos. (Depois de alguns meses, os DVD-DL não liam mais em lugar nenhum, então desaconselho-os para backup.) Imagino que a Apple trocou para um fornecedor mais barato na medida em que DVDs foram perdendo importância.

O Xenical resistiu até mesmo a um roubo. Por ser branco, ficava surpreendentemente bem camuflado a embaixo da pilha de papel da impressora. O ladrão levou o monitor que estava ao lado! Isto foi apenas uma casualidade, mas no geral eu apreciava muito a linha White dos Macbooks, apesar da tendência do material manchar com o tempo; sei que o alumínio que domina os Macs atuais tem função de dissipação (o Macbook 12" atual conseguiu livrar-se até do ventilador, cumprindo o sonho de uma vida inteira de Steve Jobs) mas o branco ainda me parece mais icônico.

O Mac da esposa (batizado Buscopan) acabou estragando. Ao que tudo indica, a placa-mãe estragou. A bateria (no fim da vida útil, mas ainda segurando carga) foi pro Xenical, o disco rígido foi retirado por questões de confidencialidade, e ainda consegui vender o que sobrou por um bom dinheiro no Mercado Livre!

É incrível como os Macs antigos alcançam preços bons, irreais até. Eu confio (não totalmente, mas em grande monta) na hipótese do mercado eficiente e sempre uso o leilão começando em R$ 1 para vender as tralhas que sobram por aqui. Isto funciona com itens que vendem em volume e giram depressa, assim aparecem compradores suficientes e há como pesquisar o preço de itens similares.

Minha esposa ainda usava o computador de vez em quando, mas cada vez menos. A tecnologia evoluiu muito desde 2010, e o celular já tinha virado o dispositivo computacional primário dela faz tempo. Até sites de compras funcionam razoavelmente bem em mobile hoje em dia. Mesmo assim eu não venderia o "Buscopan" porque ele ainda recebia atualizações do OS X e me servia de estepe de último recurso. O Xenical não podia mais cumprir este papel, e foi ficando mais e mais escanteado.

Acabei vendendo o Xenical. Além da venda render um dinheirinho (não é muito, mas poder gastar três dígitos em bugigangas sem comprometer o orçamento é sempre divertido), tenho essa crença animista que os objetos têm "alma" e devem cumprir o propósito para o qual foram construídos. O notebook ainda vai servir para quem quiser "molhar os pés" na plataforma Mac, e quando a falta de atualizações do OS X tornar-se um empecilho grave, ele ainda roda Ubuntu Linux muito bem.

Outra possibilidade teria sido usá-lo como roteador na rede (já que eu vivo brigando com os roteadores Wi-Fi e sempre volto à conclusão de que não existe nada como um computador de uso geral servindo a rede). Mas a tecnologia já andou para frente também neste front, há form factors mais adequados, como um Raspberry numa caixinha, ou um PC "ultratop".

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