Site menu Resenha: Zadig, de Voltaire
e-mail icon
Site menu

Resenha: Zadig, de Voltaire

e-mail icon

2016.01.10

Este artigo expressa a opinião do autor na época da sua redação. Não há qualquer garantia de exatidão, ineditismo ou atualidade nos conteúdos. É proibida a cópia na íntegra. A citação de trechos é permitida mediante referência ao autor e este sítio de origem.

Conforme meu post anterior sobre dívidas, pagar as parcelas de uma dívida é progressivamente mais penoso. Não no caso desta dívida com o amigo LVR, o momento do pagamento é sempre alegre, porque fecha uma aquisição de conhecimento mediante a leitura de um livro (que me foi presenteado — depois de ser alvejado e sair ileso, ou receber uma restituição de imposto, não existe nada melhor que receber um livro de graça). E eu sei que ele vai ler a resenha, e provavelmente mandar a "tréplica" por e-mail.

Acho que nunca tinha lido diretamente um texto escrito por um dos filósofos do Iluminismo. A gente conhece as idéias gerais, lê fragmentos aqui e ali, mas nunca lê um original.

O livro "Zadig, ou O Destino" é uma obra de ficção de fundo filosófico. Zadig, o herói da história, é um bom-moço incorrigível, um "incontinente da honradez" (excelente figura de linguagem de Jorge Amado). Por conta das suas qualidades de caráter, Zadig pisa em muitos calos e acaba sempre metendo-se em encrenca.

Zadig ignora rotineiramente o ditado "jabuti não sobe em árvore" — é algo que nós brasileiros aprendemos desde a tenra infância, não mexer com o jabuti pois certamente alguém o colocou lá. Por exemplo, a uma certa altura Zadig tenta esclarecer que dois animais mitológicos (basiliscos e grifos) não existem, atraindo a ira de sacerdotes que tinham escrito vários livros sobre esses bichos. Aliás, os religiosos em geral são os grandes "colocadores de jabuti" ao longo de todo o texto.

O texto usa um pano de fundo de cultura exótica, entre Babilônia e Pérsia, para adoçar a história. Nisto ele tem algo em comum com o livro "O homem que calculava", que ensina alguns macetes matemáticos através de uma prosa que se passa nas Arábias. A outra semelhança entre os dois livros é a estrutura: uma composição sequencial de pequenas e simples histórias independentes, que torna a leitura fácil de digerir.

Segundo outras análises, Zadig também tem um parentesco com outro livro, "Justine", do Marquês de Sade. Neste livro, a heroína também tem boa índole intransigente e é explorada (inclusive sexualmente) por inúmeros "bons samaritanos", até finalmente aprender a relativizar sua bondade. Os dois autores são contemporâneos e se conheciam.

e-mail icon