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Peregrinação no Tronco Sul

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Neste fim-de-semana fui 'cobrir' um trecho ferroviário que não conhecia bem: o Tronco Principal Sul entre Mafra/SC e Santa Cecília/SC.

Figura 1: Composição em espera, no cruzamento com a BR-280 em Mafra
Figura 2: Viaduto sobre o Rio do Bugre

Como Mafra é perto de casa, decidi fazer uma volta um pouco mais comprida, aproveitando para conhecer umas quebradas novas. Fiz o caminho Joinville - Blumenau - Rio do Sul - Taió - Passo Manso - Santa Cecília onde finalmente cruzei a ferrovia.

Perto de Ibirama/SC, uma bonita casa que seria digna do Dionísio Albuquerque:

Figura 3: Casa em Apiúna/SC

Para quem não é noveleiro, Dionísio era personagem da novela "Flor do Caribe", um nazista condenado a carregar a novela nas costas, até ter a pena comutada para prisão perpétua por razões humanitárias.

Passando por Taió/SC, entrevi a área de acumulação da Barragem Oeste, uma das três que ajuda a regular o nível dos rios do Vale do Itajaí. É uma represa baixa, em compensação a área inundada é grande. Quase vazia como estava, parecia um enorme banhado (tinham fechado as comportas justo um dia antes).

Fiel à intenção de fazer caminhos novos e tortuosos, tencionava subir a "Serra do Carneiro" em Rio do Campo/SC para chegar à ferrovia.

Figura 4: Estrada do Rio Carneiro, Rio do Campo/SC

O caminho parecia aberto no Google Earth, mas quando cheguei no pé da subida íngreme, parecia tomada pelo mato. Um morador local desaconselhou continuar, pois as chuvas tinham estragado novamente a estrada, e estava difícil até para motos.

Tive de retornar ao distrito de Passo Manso, entre Taió e Rio do Campo, onde outra estrada sobe para Santa Cecília, a SC-302. Fiquei decepcionado, pois queria subir a Serra Geral de forma um pouco mais "radical".

Consultando novamente o Google Earth na volta, ficou claro que a Serra do Carneiro não era fácil mesmo nos seus melhores dias, pois ganha 500m de altitude em 2km de via (inclinação de 25%).

Figura 5: Rio e ponte na SC-302, entre Taió/SC e Santa Cecília/SC

Eu sabia que a SC-302 não era pavimentada mas esperava uma estrada larga e sinalizada. Na verdade é estreita e íngreme, embora o bom ensaibramento e as pontes de concreto mostrem que ela é ativamente mantida. Foi um bom prêmio de consolação.

Figura 6: Alto da subida SC-302, entre Taió/SC e Santa Cecília/SC

A Serra Geral, que ganha diferentes nomes a cada trecho local (Serra do Carneiro, do Corisco, do Espigão, etc.) é o grande divisor de águas de Santa Catarina. Partindo de 500m de altura em Passo Manso, chega-se a 1200m lá em cima.

Os rios importantes do Vale do Itajaí nascem todos nesta serra, e esta região em particular parece haver uma nascente a cada poucos metros. A preservação ambiental é boa na encosta, mas assim que se atinge o altiplano, já aparecem os campos infinitos de pinus.

Figura 7: Plantação de pinus margeando a SC-302, Santa Cecília/SC

Estas regiões com reflorestamento tendem a ser pouco atraentes, e as estradas são muito maltratadas pelos caminhões de madeira, de modo que tinha decidido não "caçar" mais estações abandonadas em Santa Cecília, exceto a de Ubatã que estava no meu caminho. Ao menos esta região tem uma barragem, que enfeita um pouco a paisagem:

Figura 8: Represa em Santa Cecília/SC

Também descobri a posteriori que as estações próximas estão todas dentro de fazendas de reflorestamento, então chegar lá implica em andar pelos trilhos ou pedir autorização para entrar de carro, duas coisas que eu não estava a fim de fazer desta vez.

A estação de Ubatã, esta na beira da estrada e de fácil acesso, é uma das poucas em atividade que tenho visto, ainda que como base de operações e não mais como estação de passageiros: vagões parados no pátio e prédio reconstruído. Até um auto de linha estava parado por ali.

Figura 9: Estação Ubatã em Santa Cecília/SC

Vou aproveitar para incluir algumas fotos de um segundo passeio, em que procurei conhecer a ferrovia de Papanduva até Monte Castelo e Passo Canoinhas, onde ela começa a subir a Serra da Ferradura.

Figura 10: Estação abandonada no interior de Monte Castelo/SC
Figura 11: Ponte sobre o Rio Canoinhas, interior de Monte Castelo/SC
Figura 12: Estação próxima à cidade de Papanduva/SC

Dali cheguei à BR-116 e rumei para Itaiópolis. Ainda visitei a estação dentro da cidade (totalmente abandonada), e tratei de ir para o hotel e dormir, pois já tinha dirigido quase 12h.

A cidade de Itaiópolis me era desconhecida, e me impressionou positivamente: muito bonita, limpa, ruas largas etc. É pequena mas não tanto como eu imaginava.

O dia seguinte foi reservado para visitar o trecho entre Itaiópolis e Mafra, e alguma atividade extra.

Neste trecho, achei uma estação abandonada, a "Capitão Adil". Depois, passei por uma vila muito bonita, a "Colônia Ruthes".

Figura 13: Estação Capitão Adil, Itaiópolis/SC

Todas as estações apresentam a grande caixa d'água em alvenaria. A relativamente pequena distância entre estações também é cacoete dos trens a vapor. Isto é muito curioso, pois o Brasil adotou cedo as locomotivas diesel (década de 1950).

Quase todos os túneis do Tronco Principal Sul (e são muitos, 37 só no trecho catarinense) estão em lugares de difícil acesso por automóvel. A única obra de arte que visitei de perto foi um enorme viaduto sobre o Rio do Bugre.

Entre a estação e o viaduto, vi a fumaça e ouvi o rugido do trem, que tinha estado elusivo até então. Voltei rápido até o último cruzamento e filmei o trem passando.

Ou melhor, achei que tinha filmado, este seu criado aqui ainda não está muito acostumado com a câmera nova que Papai Noel trouxe, e só sobrou uma foto que tirei durante a "filmagem":

Figura 14: Trem passando no interior de Itaiópolis/SC

Aliás, esta foi apenas uma das tantas mancadas de fotografia. Se eu ganhasse um Bitcoin para cada vez que a máquina focou num capim em vez de focar na paisagem ao fundo... estou emburrecido por tantos anos tirando foto com celular.

Como este trecho ferroviário foi construído com padrões melhores, o trem pode andar, e anda, muito rápido. Lembra os trens que aparecem em filmes estadunidenses. É bom ficar esperto nas passagens de nível.

A placa comemorativa do viaduto (do 2º Batalhão Ferroviário) indica construção em 1942, mas o trecho catarinense desta ferrovia só foi inaugurado em 1963. Uma verdadeira novela, ainda que largamente superada pela Ferrovia Norte-Sul do Sarney. A idéia é que juntando-se estas duas ferrovias, mais a malha mineira e paulista, haja finalmente uma ferrovia que vá de uma ponta a outra do Brasil.

Figura 15: Placa comemorativa do viaduto sobre o Rio do Bugre

O trecho catarinense do Tronco Principal Sul tem alguns diferenciais. Já mencionei os bons parâmetros técnicos: curvas bem abertas e pouca inclinação. Isto se consegue com enormes aterros, muitos túneis, e viadutos como o da foto.

A ferrovia elide todas as passagens de nível com rodovias (exceto uma com a BR-280) por meio de viadutos. Até mesmo no acesso secundário a Itaiópolis pela SC-477 a ferrovia passa por baixo, por meio de um túnel, na localidade de Paraguaçu.

"Militar" e "Arbitrariedade" são palavras com certa afinidade, não lhes parece? :) Pois esta ferrovia construída por militares tem realmente um traçado "arbitrário". Neste caso, porque que foi projetada do zero, não seguiu nem aproveitou um leito preexistente. Deu muito mais trabalho mas o resultado ficou muito bom.

De Mafra para cima, a ferrovia "herdou" inúmeros trechos, alguns do século retrasado, embora todos tenham sido largamente melhorados e retificados, aos poucos para não interromper o tráfego.

Figura 16: Viaduto sobre o Rio do Bugre

Por conta disto, a ferrovia tem poucos conflitos com zonas urbanas, o que acaba tornando mais difícil a visitação de obras de arte. Não foi uma ferrovia "colonizadora" como a Itararé-Uruguai. Até os nomes das estações são arbitrários (Major Fulano, Coronel Sicrano) quando em localidades sem nome.

Não houve formação de vilas e cidades em torno das estações, como era comum nas ferrovias centenárias, ainda que este trecho do Tronco tenha oferecido transporte de passageiros por um bom período, entre 1963 e 1978.

Orientação

Não conte com sinal de celular nestes ermos. Fiquei sem celular desde o interior de Taió até Santa Cecília, justamente no trecho mais "labiríntico". Pode-se fazer uma boa pesquisa com o Google Earth/Maps, anotando coordenadas, etc., ou então levar os mapas topográficos do IBGE.

O site do IBGE vende o mapa impresso e também permite download, então se você for pão-duro como eu pode imprimir o mapa em folhas e relembrar como se usa tesoura e cola.

Ao menos o celular funciona como GPS e bússola, que é o par perfeito para o mapa. Mas quase todo aplicativo de GPS que eu tenha visto coloca informações demais na tela, usando fontes muito pequenas. Preciso de uma tela mostrando números grandões e com alto contraste, e não preciso de rótulos dizendo que 23º15'S é latitude — isto é evidente!

Assim, acabei escrevendo meu próprio aplicativo: SimplestGPS. Utilizei-o ativamente e com sucesso neste passeio.

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