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Canetas-tinteiro: guia de sobrevivência

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Desde meados de 2016 tenho usado quase que exclusivamente canetas-tinteiro para escrever, e já consegui contaminar dois ou três amigos com esta mania. Achei por bem documentar algumas impressões particulares, dicas e pegadinhas do hobby.

Estamos no Brasil

Para começo de conversa, é difícil achar canetas-tinteiro e os respectivos insumos no Brasil. Na melhor papelaria da cidade, você vai encontrar marcas "tradicionais" como Parker, Waterman, Scheaffer ou Montblanc a preços estratosféricos. Também encontrará os cartuchos de tinta, apenas duas ou três cores, todas caretas.

Coloquei "tradicionais" entre aspas porque estas marcas NÃO são consideradas topo-de-linha entre os hobbyistas (*). São boas canetas, meu pai usou Parker a vida toda, devemos dar crédito ao Sr. Waterman que foi o inventor da caneta-tinteiro, mas os preços praticados no Brasil jogam seu custo-benefício lá para baixo. Se sua tia rica presentou-lhe uma na formatura, ótimo.

Já as tintas dessas mesmas marcas são ruins em termos absolutos, não valem a pena nem de graça. Mesmo os tradicionalistas sabem que a Parker Azul Lavável é bem mais confortável que as demais cores. Tintas decentes, encontra-se apenas no Mercado Livre e com preços salgados. É preciso tomar cuidado pois alguns vendedores oferecem tinta de caligrafia como se fosse para tinteiro; o preço é atraente mas entope a caneta.

Papel específico para caneta-tinteiro então, esqueça. Não encontra nem no Mercado Livre...

Em resumo, se você quer se envolver com canetas-tinteiro, terá de ir às compras em sites do exterior. Canetas são fáceis de achar: no AliExpress, Banggood e eBay há canetas razoáveis por US$ 3 e frete grátis. Tinta e papel são mais caros e só se encontra em lojas especializadas. Provavelmente a maior barreira é cultural, já que é preciso saber um pouquinho de inglês. Outra opção é convencer aquele seu amigo viajante a trazer muamba.

Quem sabe apareça no futuro uma loja brasileira de produtos relacionados à caneta-tinteiro, nos moldes da Goulet Pen. Mercado, eu acho que existe. Quem viver verá.

Por que usar canetas-tinteiro?

Por que usar um instrumento de escrita que, a priori, é obsoleto? Vou colocar meus motivos em ordem decrescente de importância. Você julga se minhas razões fazem sentido para você.

Canetas

Para quem está começando do zero absoluto, o ideal é começar com as canetas chinesas, que são extremamente baratas. É importante lembrar que chineses (e orientais em geral) ainda dão mais importância à escrita manual que nós do Ocidente. Então não é apenas uma questão de preço, é uma questão de comprar de quem leva o produto a sério.

Figura 1: De cima para baixo: Pilot Varsity descartáveis em cores sortidas (aproximadamente US$ 2-3 cada); Jinhao 599 azul aberta evidenciando com o conversor internacional incluso (US$ 2-3); Jinhao 599 rosa; Deli ponta fina (US$ 4-5).

Especificamente, recomendo a Jinhao 599, que custa US$ 2 ou 3 cada, funciona bem e é fácil de desmontar. Claro que nessa faixa de preço o produto não pode ter um controle de qualidade impecável. É bom comprar logo uma dúzia, para o caso de uma ou duas apresentarem problemas. Por serem tão baratas e também por precisarem de ajuste nas penas para o melhor desempenho, são excelentes para aprender a manutenção, principalmente o ajuste fino das penas. Ajustar penas é potencialmente destrutivo, mas é melhor destruir uma pena de US$ 2 do que uma de US$ 50.

Pessoalmente, sou desastrado e já destruí diversas canetas-tinteiro, geralmente deixando cair no chão e a lei de Murphy encarregou-se de fazer a pena bater primeiro no piso. Se é o seu caso, ou tende a esquecer canetas por aí, pode permanecer para sempre nesta faixa de preço. Outra opção é a caneta-tinteiro descartável como a Pilot Varsity, que custa mais ou menos US$ 3 cada, e escreve muitíssimo bem.

A faixa seguinte é de canetas de US$ 5-20, também encontráveis em sites chineses como AliExpress, Banggood; ou no eBay. Jinhao x450/x750, Deli, Hero, Wing Sung 618/698, etc. Tente ficar nas marcas e modelos mais conhecidos, pelo menos no início; muitas canetas chinesas nesta faixa são extremamente bonitas mas têm problemas de qualidade. Já joguei várias no lixo.

Uma modificação popular é substituir a pena tamanho #6 da Jinhao x450/x750 por outra de melhor qualidade, o que resulta num "Frankenstein" de US$ 21 (6 da caneta mais 15 da pena) cujo desempenho rivaliza com canetas bem mais caras.

Figura 2: De cima para baixo: Jinhao x750 (US$ 5); TWSBI Eco em acrílico transparente com pistão e ferramentas inclusas (US$ 30).

Na faixa de US$ 20-35, os sites chineses já não ajudam muito. Hora de comprar na Goulet ou outro site que faça remessas ao Brasil. Canetas como Pilot Metropolitan, Lamy Safari (que pessoalmente não gosto) e TWSBI Eco estão nesta zona. Ainda são canetas "de entrada" mas já terão uma qualidade mínima, não devem precisar de ajustes para escrever bem. (**)

A faixa de US$ 35-100 apresenta a maior variedade de canetas, todas boas e de personalidade, inclusive alguma coisa em materiais mais nobres como ebonite ou acrílico. Porém as penas ainda serão todas de aço inoxidável. Nesta faixa também estão as famosas canetas artesanais Ranga, encontráveis no eBay.

Figura 3: TWSBI Diamond 580 em acrílico (US$ 50). Screenshot do site The Goulet Pen Company.

Canetas com pena de ouro custam no mínimo US$ 150, que também é o preço mínimo de unidades que recebem trabalho artesanal. Considerando a grande probabilidade de pagar impostos de importação, e o prejuízo em caso de perda ou tombo, vou ficar estacionado na faixa dos US$ 30-50 por um longo tempo, embora "um belo dia" pretenda ter uma unidade com pena de ouro.

Figura 4: Edison Collier em acrílico usinado (US$ 150). Screenshot do site The Goulet Pen Company.

Figura 5: Pilot Metal Falcon (US$ 240). Screenshot do site The Goulet Pen Company.

Figura 6: Kanilea Kahakai (US$ 395). Screenshot do site do fabricante.

Canetas acima de US$ 500 são invariavelmente produtos artesanais feitos de materiais nobres como acrílico, celulóide, mármore, pedra de lava vulcânica, pedras semi-preciosas, ou decoradas com técnicas extremamente intensivas como as pinturas urushi que podem consumir semanas de trabalho. Penso que canetas até US$ 1000 (preço de um iPhone) ainda podem ser consideradas instrumentos de escrita. Daí para cima já entramos em terreno de joalheria, ou de colecionadores de arte. Por exemplo, há poucos artesãos de urushi no Japão, quase todos idosos, então pode-se especular que uma caneta urushi valorizará enormemente nos próximos 50 anos.

Figura 7: Montegrappa Passione em celulóide (US$ 596). Screenshot do site The Goulet Company.

Figura 8: Aurora 88 com detalhes em pedra semipreciosa (US$ 716). Screenshot do site The Goulet Company.

Figura 9: Pilot Namiki Emperor Maki (US$ 5.600). Screenshot do site The Goulet Company.

Cartuchos e métodos de armazenamento de tinta

A nódoa do universo das canetas-tinteiro é a incompatibilidade dos cartuchos descartáveis. Infelizmente, vender cartuchos de tinta já era um grande negócio antes das impressoras. Muitos fabricantes como Parker, Sheaffer, Cross, Platinum e Lamy usam formatos proprietários.

A incompatibilidade afeta os conversores (cartuchos recarregáveis com êmbolo). Se o cartucho é proprietário, o conversor também será. Muitas vezes não vem junto com a caneta e será um gasto extra. Os conversores são os componentes mais "quebráveis" e portanto as versões proprietárias serão um gasto recorrente. Ou isso, ou encher cartuchos vazios com seringa de injeção.

Existe um formato padrão, "internacional", que felizmente outros tantos fabricantes adotam, e diversos fabricantes de tintas também fornecem cartuchos neste formato. Se você simplesmente não quer correr o risco de sujar as mãos, fique com os cartuchos. Da mesma forma, os conversores internacionais são compatíveis com todas as canetas que aceitam os cartuchos internacionais. A única coisa a se observar é o comprimento: os cartuchos têm versões curta e longa, e naturalmente uma caneta curta não acomodará um cartucho longo.

Figura 10: Conversor internacional Jinhao e dois cartuchos internacionais curtos.

No outro extremo, há as canetas alimentadas por conta-gotas. Não há conversor nem nada dentro do corpo da caneta, que é inteiramente preenchido de tinta. Alguns vidros de tinta vêm com um conta-gotas na tampa para facilitar o trabalho. A desvantagem deste sistema é a grande chance de fazer sujeira. Se alguém desrosquear o corpo da caneta, vai pintar o mundo inteiro.

Tanto o conversor quanto o conta-gotas permitem carregar a caneta sem mergulhar a pena na tinta. Se o vidro de tinta é raso ou está quase vazio, torna-se uma vantagem importante.

Outro sistema antigo é o reservatório de bexiga. Abrindo a caneta, há um balãozinho de borracha. Pressione para expulsar o ar, solte com a pena mergulhada na tinta para encher. Algumas canetas têm inclusive uma janela no corpo para poder pressionar a bexiga sem abrí-la. O grande problema é que toda bexiga estraga, mais cedo ou mais tarde, e pode ser difícil achar peças de reposição.

Um sistema muito encontrado em canetas mais caras é o de pistão embutido, que funciona de forma análoga ao conversor mas é parte integrante do corpo da caneta. É robusto e armazena muita tinta. A única possível desvantagem é a dificuldade de encher a caneta a partir de um tinteiro quase vazio. Uma variante muito interessante, encontrada por exemplo na Edison Menlo, é a bomba de vácuo.

Penas

O coração da caneta-tinteiro é a pena. O bom funcionamento e a suavidade da caneta são função quase direta da qualidade da pena. A grossura do traço também é ditada pela pena, o resto da caneta é igual, seja versão de traço fino ou grosso.

A primeira escolha é entre pena fina, média ou grossa. Isso realmente depende de sua preferência e do uso que você dará à caneta. Mas no geral é seguro começar com uma pena média, porque ela é mais "molhada", tem ponta mais redonda e escreve mais suavemente, em comparação com uma pena fina. Além disso, os asiáticos tendem a preferir penas mais finas, então uma caneta japonesa "fina" seria equivalente à "extra-fina" ocidental.

Além dos três ou quatro tamanhos básicos, existem as penas de caligrafia chatas, itálicas, de grossura acima de 1mm, e "flex" (que proporcionam fácil variação da largura). Não me interessam pessoalmente, mas existem.

Historicamente as penas são feitas de ouro por ser um metal resistente à corrosão e fácil de trabalhar. Porém, o avanço da tecnologia nos proporciona excelentes penas de aço inoxidável. Uma pena de ouro tende a ser melhor, mas isto tem uma razão prosaica: só é instalada em canetas mais caras, que têm suas penas testadas e ajustadas manualmente.

O ouro tem vantagens inerentes. É mais macio e flexível que o aço dada uma mesma geometria de pena, Outra vantagem do ouro é ser mais "molhável", ou seja, um líquido tende a espalhar-se sobre a superfície em vez de formar gotas. Isto ajuda com o fluxo de tinta.

É possível ajustar uma pena, embora seja um expediente perigoso. É bom treinar primeiro em canetas baratas, que precisarão de ajustes de qualquer jeito. Abordo a questão da manutenção neste outro artigo. Por ora, cito os defeitos que uma pena pode ter:

Arranhar (scratch): a caneta "arranha" ou mesmo rasga o papel, geralmente em apenas uma direção (e.g. para cima ou para a esquerda). A causa mais provável é um desalinhamento das metades da ponta, mas também pode ser o caso da ponta precisar de polimento.

Feedback: a caneta transmite vibração ou a rugosidade do papel para a mão. Assumindo que o papel não seja rugoso, talvez a ponta da pena precise de polimento para ficar mais lisa. Não é um defeito grave, na verdade algumas pessoas gostam de uma caneta com mais feedback.

Muito "seca" ou muito "molhada": o canal de tinta deve ser reto em toda a pena. Se o canal estreita, a caneta solta menos tinta do que deve, proporcionando uma escrita com muito atrito e/ou com falhas. Por outro lado, um canal que abre em direção à ponta despejará tinta demais.

"Bunda de bebê" (baby's bottom): o canal de tinta deve ser reto até a ponta, para que a capilaridade leve a tinta até o papel sem falhas. Se a ponta "abre", por estar torta ou porque as paredes internas arredondaram, a tinta não chega mais até a pontinha. O sintoma é que a caneta só começa a escrever com um pouquinho de pressão.

    ( | T | )          ( \   / )          ( ) - ( )       
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     pena ok                 "bunda de bebê"

Upgrade da pena

Um aspecto avançado do hobby é a substituição da pena por um exemplar melhor. Não raro encontra-se uma caneta bonita e que funciona bem, mas com uma pena medíocre. Muitas canetas chinesas e indianas sofrem deste problema. Em tese, todas as penas funcionam segundo os mesmos princípios e podem ser trocadas à vontade. Infelizmente, há dois percalços.

Primeiro: o tamanho, formato e espessura das penas não segue um padrão. Trocar uma pena envolve pesquisa, comparação com a pena original, e teste de funcionamento. Existe um arremedo de padrão no formato "#n", por exemplo penas #5, #6 e #5.5. Se você sabe que uma caneta tem pena #5, naturalmente a procura começa por penas #5; uma pena #6 certamente não encaixaria. Mesmo assim, pode acontecer que a pena nova não encaixe, ou precise de uma pequena modificação. (O significado desse número é outro motivo de discussão infinita, mas até onde sei é a medida em milímetros da base da pena.)

Segundo: é difícil conseguir penas. Os fabricantes de canetas capazes de fabricar penas não têm interesse comercial em vendê-las — é mais lucrativo vender uma caneta de US$ 100 que uma pena de US$ 15. Os fabricantes alemães Jowo, Bock e Schmidt só fazem penas e dominam o mercado de penas "soltas". Lojas dignas de nota que despacham para o mundo todo: Goulet, Fountain Pen Revolution e FPNibs. Outra forma de conseguir penas, praticada por hobbyistas mais avançados, é comprar canetas antigas para reaproveitar as penas.

Tintas

Conforme dito antes, as tintas que se encontram facilmente no mercado nacional são ruins. Uma exceção, já citada, é a Parker Washable Blue: a cor é careta, mas é bem "molhada" e lubrificada. Outra opção razoável e fácil de achar no Brasil é a linha Pelikan 4001.

Depois de um tempo você vai querer tintas melhores e cores diferentes. A própria Pelikan oferece a linha Edelstein. Outras marcas bem conhecidas são Pilot Iroshizuku, Diamine e Noodler's. Visite meu artigo específico sobre tintas para mais informações sobre algumas marcas.

Figura 11: Da esquerda para a direita: Pelikan 4001 (R$ 30 no Brasil), J. Herbin (US$ 15), Diamine envasada em plástico (US$ 7,50) e amostra de tinta da Goulet Pen (US$ 1,25 a 3,25 dependendo da tinta)

Se você insistir em comprar no Mercado Livre, tome cuidado para não comprar tinta de caligrafia. Por ignorância, alguns vendedores oferecem tintas de caligrafia dizendo que é para caneta-tinteiro. Para piorar, costumam ser baratas e com maior variedade de cores. Porém, elas são feitas para aquelas canetas "bico de pena" que sempre são lavadas ao final do trabalho. Tinta nanquim (india ink) também não serve para caneta-tinteiro pois sua cor vem de um pigmento (negro-de-fumo, aquele pozinho preto que se acumula em chaminés e escapamentos) e ainda contém goma arábica ou verniz shellac. Não é difícil imaginar o estrago feito assim que a tinta seca.

Resista à tentação de comprar um vidro de tinta porque gostou da cor anunciada. Compre primeiro uma amostra. Primeiro, porque cada tinta flui diferente, então é preciso testá-la com suas canetas. Segundo, as cores do mundo real sempre são diferentes do anúncio. Você vai descobrir que seu monitor está longe de reproduzir todas as cores.

Se você tem preocupação com segurança, se usa a tinteiro para assinar documentos importantes, etc. procure tintas permanentes, anunciadas sob termos como "Document", "Permanent", "Bulletproof", "Registrar" ou "Iron Gall". Elas reagem com a celulose do papel e pelo menos uma parte dos pigmentos resiste à água e mesmo a solventes. A química destas tintas é mais agressiva, pode manchar roupas e afetar a própria caneta. Também é perigoso misturar com outras tintas. Eu reservaria uma caneta barata de plástico para esse tipo de tinta.

Alguns defeitos como feathering, ghosting, spreading serão mencionados na próxima seção sobre papeis, pois dependem mais deles. Mas uma tinta de boa qualidade ajuda muito; se você escreve muito em papel medíocre, se você costuma assinar ou anotar páginas impressas ou xerocadas (cujo papel é uma variável fora do seu controle) compense isto com a melhor tinta que puder comprar.

O shading é a variação de tonalidade conforme alguns trechos do traço acumulam mais tinta. Para alguns isso é um defeito, para outros é o grande charme de escrever com tinteiro. Cada tinta é diferente também neste aspecto. Mais um motivo para comprar amostras e fazer testes.

Papel

UPDATE: escrevi mais longamente sobre alguns papeis que testei com caneta-tinteiro.

É difícil conseguir papel próprio para canetas-tinteiro no Brasil. Na verdade, até nos EUA o pessoal reclama da escassez, porque os melhores papeis são franceses (e.g. Rhodia, Clairefontaine) ou japoneses (e.g. Tomoe River) e poucas lojas oferecem. A quase totalidade das agendas e cadernos é péssima para tinteiro, incluindo os famosos e caríssimos caderninhos Moleskine. Quase todo papel "de escrita" é destinado a esferográficas.

Mas o que seria um papel bom para tinteiro?

Ele deve ser o mais liso possível para que a pena deslize suavemente. Também deve ser pouco absorvente de modo que a tinta seque "sobre" o papel, ou pelo menos não atravesse para o outro lado (bleeding). Deve ter boa espessura para que não enrugue mesmo quando saturado de tinta. O traço não deve expandir em largura (spreading) e não deve formar aqueles "cabelinhos" por capilaridade das fibras do papel (feathering).

Quem não tem cão caça com gato. O jeito é experimentar com papeis disponíveis no mercado e encontrar o que há de "menos pior" para tinteiro. Obviamente, a procura tem de começar por papeis de boa qualidade. A figura abaixo mostra um teste com três deles:

Figura 12: De cima para baixo: bloco lay-out liso Spiral 70g, papel sulfite HP Laserjet 90g, papel Chamex 90g Super. Tinta: D`Atramentis Turquoise Mint. Caneta: Jinhao 599. Recomenda-se clicar para ampliar.

O melhor resultado foi obtido com papel específico para escrita manual, o bloco Spiral 70g. Pode-se comprar na Kalunga a bom preço, e o desempenho é irrepreensível.

Em segundo lugar vem o papel HP Laserjet 90g. De maneira geral, sulfite para impressora laser é bom para tinteiro por não ser absorvente. Sulfite costuma ter acabamento diferente em cada lado; use o lado mais liso, do contrário o feathering aumenta bastante.

Em terceiro lugar, o Chamex Super 90g. Este papel é próprio para jato de tinta, que costuma não ser tão adequado para tinteiro. O feathering e o spreading são bem visíveis.

Note que usei uma tinta verde particularmente "ruim" para amplificar os defeitos. Outro teste com outra tinta:

Figura 13: De cima para baixo: bloco lay-out liso Spiral 70g, papel Chamex 90g Super. Tinta: J. Herbin Rouille D`Ancre (misturada com 2ml de Pelikan 4001 Red para ficar um pouco mais vistosa). Caneta: Pilot Varsity recarregada. Recomenda-se clicar para ampliar.

A tinta da amostra acima teve desempenho muito parecido nos papeis Spiral e Chamex. A única diferença que me ocorre é o shading mais intenso no papel melhor, que nem mesmo é um efeito desejado por todo mundo. Ficou demonstrado que uma boa tinta contrabalança os problemas do papel.

Manutenção

A principal ferramenta de manutenção de uma caneta-tinteiro é simplesmente água. Pode ser água da torneira mesmo. Se você mora num lugar com "água dura", que deixa muito resíduo, talvez queira usar água destilada.

Toda tinta para caneta-tinteiro é à base de água, totalmente solúvel em água e quase sempre sem resíduos sólidos. (Se você tem alguma tinta diferente disso, provavelmente é para caligrafia e não para tinteiro.) Canetas-tinteiro lavam-se e desentopem-se com água fria ou morna, nada mais. Deixe três dias de molho, se necessário. Quem é realmente maníaco por limpeza pode usar limpador ultrassônico.

Algumas soluções de limpeza têm um pouco de amônia, que deve ser enxaguada imediatamente. Solventes como álcool, cândida (hipoclorito), álcool isopropílico, acetona, etc. vão destruir a caneta pois atacam plásticos e borracha. Água quente pode distorcer alguns plásticos, em particular o celulóide de uma caneta rara e cara...

Alguns implementos de farmácia podem ser úteis para limpeza e para lidar com tintas: seringas de injeção com pontas "cegas" para evitar ferimentos, bulbos de borracha, papeis absorventes.

Ajuste e polimento da pena são operações que podem destruir a pena, portanto você deve treinar muito em canetas baratas antes de pensar em fazer isso com canetas caras. Por outro lado, canetas caras provavelmente não precisarão de ajustes, enquanto toda Jinhao 599 que você comprar precisará de ajustes.

Figura 14: Algumas ferramentas de manutenção: vidro com água (adaptei de um vidro de perfume), bulbo, seringa, folhas de latão e alumínio, lixa de unha, lixa 12000 e micromesh de mylar para polimento da pena.

A mais importante ferramenta é uma lupa, que talvez você já possua. O ajuste do alinhamento e da largura do canal de tinta pode ser feito com as mãos, forçando o metal delicadamente para que ele vá para a posição desejada, mas não a ponto de entortar e distorcer. Um pedaço de latão fino, ou de latinha de alumínio (entre 0,06mm e 0,12mm) pode ser útil para introduzir entre as metades da pena e torcer levemente a fim de abrir um canal que se fecha em direção à ponta. Nada de usar pinças, pontas de faca ou alicates porque são todos grossos demais.

Uma vez que fluxo de tinta e alinhamento estejam perfeitos, pode-se polir a ponta da pena. É preciso usar lixas muito finas para isso, com números acima de 3000. A Goulet vende lixa 12000 e pedaços de mylar de 1µm e 0,3µm próprios para isto. Lixas apropriadas não têm textura de lixa, e sim de couro.

Se você não quiser gastar, uma humilde lixa de unha pode servir tão bem quanto. Mas tem de ser uma lixa de unha macia, não aquela que parece areia colada num palito de picolé. Geralmente as boas lixas de unha vêm com três ou quatro texturas. Você deve usar apenas a mais suave, que nem parece abrasiva e serve para dar o brilho final nas unhas.

Obviamente, lixar e polir a ponta de uma caneta remove material da mesma, então é um processo destrutivo e sem volta. Deve ser feito aos poucos, com cuidado, testando a caneta no papel o tempo todo, fazendo traços de todos os tipos e em todas as direções para identificar em que sentido a ponta ainda precisa de tratamento. A caneta deve estar carregada pois a tinta lubrifica o processo.

Como aprender mais sobre canetas-tinteiro

No momento, as melhores formas de aprender sobre caneta-tinteiro são canais estrangeiros do YouTube, que infelizmente exigem do espectador que entenda o inglês falado (o CC do YouTube ajuda bastante se você ainda estiver nas aulinhas de inglês).

Notas

(*) Alguns modelos específicos destas marcas são bem considerados. Geralmente são modelos antigos, da "era de ouro" das canetas-tinteiro, como a legendária Parker 51. Exemplares bem conservados são negociados a preços bem altos, o que surpreende em se tratando de objetos produzidos em enormes quantidades. Um possível fator da relativa decadência destas marcas é o fato de muitas dessas empresas não serem mais independentes; pertencem a enormes holdings que dedicam-se a "colecionar" marcas famosas. Por exemplo, Parker e Waterman pertencem ambas à Newell Brands. A Sheaffer pertence à Cross, mas pelo menos esta holding também fabrica canetas.

(**) Mas um produto mais caro também não é 100% garantido. Minha TWSBI Eco chegou perfeita, mas uma TWSBI Classic (duas vezes mais cara) precisou de ajuste na pena. A loja aceita devolução e troca, mas o frete de volta para os EUA seria proibitivo, fora o tempo de espera e o estresse. então decidi arriscar resolver por aqui mesmo. Valeu a experiência adquirida com às Jinhao, que me custou apenas 2 ou 3 penas (baratas) arruinadas.

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